Resenha quase rápida: O Silêncio da Casa Fria

 

De Laura Purcell

 


 

Com uma narrativa dividida em três tempos distintos, inicialmente temos a protagonista presa em um manicômio, após ter ficado meses em recuperação devido a um incêndio supostamente criminoso, em que supostamente ela é a culpada. Porém, seu psicólogo atual tem suas dúvidas a cerca disso. Como ela não fala mais, ele lhe entrega um caderno para que escreva o que se lembra do ocorrido. Com um esforço, ela vai se lembrando de como tudo se desenrolou, e suas memórias desse passado, a princípio sem definir se muito ou pouco distante, e assim temos a segunda narrativa e a que ocupa a maior parte do livro. Por vezes, a narrativa atual é retornada, quase como se fosse uma entrevista em que, ao entrevistado ser questionado, ele relembra um fato e então volta ao presente para que seja questionado novamente.

A segunda narrativa começa quando a protagonista está indo para uma casa de campo após a morte de seu marido. Como seu casamento é recente, e sua viuvez mais ainda, porém, está grávida, para não ficar mal falada, vai se isolar em uma das propriedades do falecido marido em que ele mesmo não usava. O lugar é tão remoto e cheio de superstições que não tinha como não ser um cenário de uma história de terror. Ela não está sozinha, porém. Seu irmão aparece ocasionalmente e a prima solteirona de seu marido, de quem inicialmente ela não gosta muito, vai para lhe fazer companhia. Um dia, as duas resolvem explorar o sótão e encontram duas coisas: um diário e uma espécie de banner de madeira com figuras humanas desenhadas (sabe aqueles desenhos em que tem um teatrinho acontecendo e o cenário é simplesmente placas de madeira desenhadas, com o contorno certinho das árvores? Isso aí), e eis que a capirotagem começa.

A terceira narrativa vem desse diário e, obviamente, ocorre no passado e narrado em primeira pessoa, e é nele que temos as respostas para as coisas sobrenaturais que estão acontecendo. Assim, vamos montado o quebra-cabeça com as peças do “presente” e do passado. A única narrativa que acho mesmo quase irrelevante é a primeira, mas uma hora ela acaba inevitavelmente sendo a principal, já que é nela que se dá o desfecho final.

E que desfecho! Apesar de não ter gostado da explicação para os “fenômenos paranormais”, o último capítulo realmente dá uma agonia e um desesperozinho. Aliás, gosto muito de toda a atmosfera de terror que é criada e como se desenvolve e, principalmente, como um elemento tão bobo pode ser tornar algo tão sinistro, e quando uma história de terror faz isso (como os mangas do Ito Junji), já me ganha.

No entanto, devo alertar que existem incoerências narrativas e históricas (pelo menos ao me ver, têm coisas que são questionáveis). Começando pelo próprio manicômio. Em que já parecia uma clínica moderna em que o médico só vai lá e conversa com o paciente (a psicanálise surgiu em 1890. E, se não me engano, a história se passa na era vitoriana que, segundo o Google, durou de 1837 a 1901. A psicanálise demorou 10 anos para ser difundida e adotada? Duvido muito. Pesquisem como os manicômios funcionavam em 1900. Somente quando os medicamentos começaram a surgir é que as práticas mais loucas que os pacientes pararam).

O livro me entediou em alguns momentos, principalmente na narrativa do passado, mas, vale a pena o esforço de superar essas partes. O título não faz tanto sentido em português quanto o original, além de parecer genérico (Darkside acertando em uns pontos, errando em outros. Não perde o costume). A protagonista tem um passado negro que em quase nada tem a ver com o desenrolar da história, a não ser que o leitor preferia o caminho da incredulidade e procure por uma explicação “racional” para os acontecimentos bizarros e, de fato, a achar uma louca. Porém, se a autora queria mesmo dar espaço a essa possibilidade, não fez isso muito bem, porque não parece nem de perto tão convincente quanto acreditar no sobrenatural, além da parte do sobrenatural ser muito mais interessante que os traumas do passado. Além do mistério das figuras de madeira, existem outros que se relacionam a origem desse primeiro, que não fazem tanto sentido assim, mas adicionam lenha na fogueira e aumentam a tensão. O fato da protagonista estar grávida dá uma agonia a mais em determinadas partes. Poderia ter mais personagens para ter mais mortes (hehe). O final da segunda narrativa é aquele final em que várias coisas vão acontecendo ao mesmo tempo, facada atrás de facada, não tem como não querer ler tudo de uma vez. Em geral, tem alguns defeitos, mas é uma história de terror diferente, com alguns elementos inéditos e outros já batidos. Para quem curte um terror que aposta mais na tensão crescente em vez de coisas estrambólicas, esse livro pode ser uma boa dica.

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