Resenha: O Clube da Meia-Noite
Amo essas séries ou livros em que o tempo todo o enredo faz questão de dizer o quanto a protagonista é inteligente, sendo que ela só tem ideias e atitudes burras. E a garota durona é um pé no saco, e o cara legal, um sonso.
Bem-vindo ao clube da meia-noite!
Em uma casa de repouso (na verdade, eles usam o nome “hospício” na legenda que é tão equivocado quanto o termo que estou usando), jovens com doenças terminais vão até ali para, bom, viverem seus últimos dias antes de morrerem. A história acompanha a garota inteligente só que não Ilonka (mas pelo menos ela tem um nome legal), que é aquela típica garota de fanfic que queria ter ido para a faculdade estudar literatura e que só sabe recitar frases de grandes autores que todo mundo conhece (eu apaixonada por literatura quero morrer com personagens assim, imagina quem não é), mas que não deu porque afinal ela descobriu ter um câncer e, como não conseguiu se curar, o diagnóstico foi: você vai morrer. Então ela decide ir até esse lugar, Brightcliff (que nome irônico), mas não porque ela perdeu as esperanças, pelo contrário, porque nesse lugar pode estar a única esperança para sua sentença de morte.
Aproveito essa deixa para fazer dois comentários: o trailer da série é muito bom porque revela o necessário para entender do que se trata a história, apesar que essa parte da esperança fica meio de fora e mais parece algo de terror em que a morte os espreita, o que não deixa de ser verdade, mas considero essa série mais de drama do que de terror, mas tem bastante terror sim. Além de que, a maioria das cenas mostradas no trailer, são cenas do primeiro episódio; já o segundo comentário é: como a Ilonka ainda consegue falar normalmente sendo que ela tem um câncer na tireoide? De qualquer forma, caso odeie “A culpa é das estrelas”, saiba que a série trata pouco da parte das doenças em si, tem gente ali que nem parece que está morrendo. Isso é bom por um lado, porque afinal quem quer ver uma série sobre doença sendo que o câncer que é Grey’s Anatomy já existe e nem é a doença em si que a série quer tratar (nossa, que uso infeliz das palavras), por outro lado, talvez isso devesse ser mais presente já que não dá para negar que todo mundo ali é doente. Sim, há cenas que eles fazem tratamento e algumas em que passam mal, mas ficou mais como pretexto para alguma outra coisa acontecer do que para retratar que eles estão se tratando, porque nem parece que eles estão se tratando.
Voltando a premissa, á noite, a Ilonka descobre um clube secreto frequentado pelos demais pacientes, em que eles se reúnem todas as noites para contar histórias de terror na biblioteca. Para se juntar a eles, Ilonka é desafiada a contar uma história e o que ela conta é supostamente a história real de uma ex-paciente de Brightcliff que se curou milagrosamente diante de circunstâncias misteriosas: sumiu por uma semana e, quando voltou, estava curada. E eis o motivo de Ilonka ter ido até ali, para descobrir esse segredo.
Todo episódio ao menos uma história é contada, e encenada (dentro da série, não literalmente os personagens encenando), em alguns mais que uma, e a maior parte do terror da série está contido nelas. E tem vários pontos legais nisso. Primeiramente, a série trabalha vários tipos de terror e suspense, há histórias mais de suspense, algumas mais clássicas, histórias de assassino, de “nunca faça isso” e até ficção científica (que nasceu como um subgênero do terror caso não saiba) e NOIR (aquelas novelas antiquadas de detetive). E, a história contada por cada personagem, relaciona-se com esse de alguma forma, mais literal ou metafórica, tanto que eles sempre são, literalmente na encenação, os protagonistas das próprias histórias. É aquela coisa né, toda ficção tem uma pontinha de verdade. Eu diria que quase todas elas começam chatas mas, a medida que elas vão se desenvolvendo e vamos entendendo aonde elas querem chegar, elas conseguem encantar, talvez até surpreender ou nos divertir no sentido mais cômico mesmo, e sempre fica uma liçãozinha ou reflexão no final. Teve umas que realmente marcaram e até emocionaram, pois, não é somente a história dos próprios personagens que está neles, como também a prova do desenvolvimento que tiveram ao longo da série. E, particularmente, para os mais medrosos, quase nenhuma delas causa realmente medo, é mais um mix de sentimentos.
Bora falar um pouco dos personagens para você ver como são todos jovens insuportáveis e estereotipados. Kevin é o cara bonzinho e sonso que é o interesse amoroso de Ilonka (e se você não quer ver romance adolescente, não se preocupe, porque isso é praticamente inexistente aqui), Cheri, a garota riquinha e mitomaníaca, Natsuki, a japonesa depressiva que ama terror, Spencer, o homossexual revoltado que tem AIDS (que na época em que se passa a série, nos anos 90, era praticamente uma sentença de morte), Sandra, a garota certinha e chata que quer converter todo mundo ao cristianismo, Armish, o indiano engraçadinho que ama vídeo games, e Anya, a garota durona e pé no saco que perdeu uma perna para o câncer. Anya será a colega de quarto de Ilonka e a garota é tão insuportável que faz até a Ilonka parecer legal. Mas, uma hora, você acaba relevando, afinal, vão todos morrer e, apesar de todos os defeitos, ela acaba se mostrando fiel aos amigos que é algo bem comum em séries mas extremamente raro na vida real (isso não é uma indireta pra 19 conhecidos meus). Seja por simples empatia (por quem vai morrer) ou porque os personagens acabam cativando em algum momento, torcemos por eles e esperamos que o tal milagre aconteça (talvez não para a Ilonka que faz muita, mas muita besteira... cara, ela encontra a Claudia e no meio do mato e passa a confiar cegamente no que a mulher fala só porque é tão natureba quanto ela (um atendo: “Claudia” é como eu chamo toda velha louca fanática religiosa, por causa do Silent Hill. Inclusive eu chamo a velha de “O Nevoeiro” assim também. E a personagem da mesma atriz em “A Missa da Meia-noite”, não adianta, pegou, essa atriz sempre será “Claudia” pra mim, nunca vou saber o nome verdadeiro dela)). Aliás, aproveito a deixa para dizer que a Cheri é uma personagem injustiçada. Além de que queria ouvir mais das histórias mentirosas dela (ela lembra uma amiga que tive), ela é a menos desenvolvida dos personagens e a única que não contou história nenhuma durante a temporada. Ela até tem seus momentos, porém é negligenciada. Sinto que todo personagem teve seu espaço, menos ela. Outra crítica que tenho é que há alguns personagens que quase não aparecem nas encenações das histórias, no caso estou falando do Armish mesmo. E aproveito também para declarar que o Spencer é meu personagem favorito, ele teve um bom desenvolvimento, não somente a aceitação da sexualidade dele e de sua doença, como também de sua relação com a própria mãe e a religião, além de que, apesar de meio cabeça dura e agressivo em alguns momentos (coisa que não posso desaprovar), ele é um cara legal. Gosto da Natsuki também porque ela é do tipo que aceita as pessoas como são. Digo que a Ilonka é chata, mas ela passa como protagonista, afinal, se ela não fizesse besteira, não teria o enredo da bruxaria e eu gosto de bruxaria, ainda mais quando é pagã (que é basicamente qualquer magia que não é cristã. E sim, existe magia no cristianismo também, só o fato de rezar e carregar uma cruz ou rosário como amuleto já é considerado uma prática mágica).
Outro elemento que é mostrado no trailer e que reflete bem o clima da série é o fato da morte estar sempre à espreita, seja num sentido psicológico, natural ou sobrenatural. Ainda assim, senti um pouco de falta desse fator sobrenatural. Até o momento, fica muito no “pode ser real” ou “pode ter uma explicação realista”. Dizem que aqueles que estão próximos da morte enxergam uma certa figura negra, porém, como tomam remédios muito fortes somado aos problemas que têm, pode ser apenas alucinação. A Ilonka tem umas visões que parecem ser do passado e se relaciona com a seita da Claudia. Aliás, quando disse que havia presença de magia, quis dizer que parece que é uma espécie de seita que a evocava, por enquanto, essa parte ainda não foi tão explorada na série, mas, muito provavelmente, será na temporada seguinte já que é um ponto importante. E sim, a série terá continuação! Pelo menos digo baseado no final que é impossível ser um final definitivo. Imagino que, nessa primeira, a intenção tenha sido mais apresentar os personagens e o ambiente, além de se concentrar nas histórias, mas que na próxima ou próximas, haverá mais o elemento sobrenatural na realidade dos personagens, mais dessa seita (que inclusive envolve mitologia grega) e do que realmente é Brightcliff. Mal posso esperar.
Poderia falar de mais coisas, mas essa resenha já está bem grande, então vou apenas finalizar dizendo que, mais uma vez (tirando talvez em Mansão Bly), o Mike Flanagan não me decepcionou e finalmente, finalmente, ele criou uma série que não termina na primeira temporada (sim, estou feliz por isso, o que já é um grande indício do quanto gostei). Tem espaço para melhorar, mas todas as peças já foram dadas, basta desenvolver bem que não tem como não ficar melhor ainda.
P.S: quando a Ilonka e o Kevin se vêm pela primeira vez, e parecem “que já se conhecem”, achei que ia acontecer a mesma cagada que na Mansão Bly. Só que não! O diretor, roteirista, sei lá quem, aprendeu a lição e deixou que o relacionamento deles se desenvolvesse aos poucos, de forma que tangível (mas que fica no vai, não vai).
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