Resenha: American Horror Story Temporada 10

 


 

Quando a fórmula para de dar certo e aí todo o hype vira decepção.

A décima temporada ganhou o nome de “Double Feature” porque na verdade são duas antologias em uma única temporada, a primeira parte, Red Tide, em seis episódios e a segunda parte, Death Valley, nos quatro restantes. E essa primeira parte em especial que me decepcionou mesmo, a segunda até consegui gostar, apesar de trazer um tema que particularmente não me atrai muito.

E por que não deu certo, ao menos para mim? Porque “Red Tide” é muito reciclada. Ela não traz nada de novo, pelo contrário, dá para perceber o esforço de tentar ser original e falhar miseravelmente, os mesmos elementos de sempre, mas de forma já não mais tão eficaz, os assuntos abordados são muitos rasos ao meu ver, em geral, faltou desenvolvimento também e nem é questão de ter menos episódios, e sim de juntar muitas coisas e não prendê-las bem. A discussão principal trazida é até onde o ser humano pode ir pela arte, ou melhor, pela perfeição. E a maneira como isso é abordado, pra mim, não funcionou. A temporada traz o Finn Wittrock como seu primeiro protagonista na série, um escritor que vai buscar inspiração numa cidade litorânea cheia de mistérios (tem algo mais americano que isso?) e, dentro do tema, temos a esposa dele, como a Lily Rabe, que acredita ter um talento para decoração de interiores, mas, tirando o concurso de instagram que ganhou, parece nunca ser capaz de criar mais nada, porém, de qualquer forma, ela ficou responsável por decorar a casa em que vão passar o tempo enquanto estiverem nessa cidade. E, a filha do casal, uma menina de uns 10 anos, que toca violino e aspira a perfeição. Com bloqueios de escrita, o escritor procura por inspiração até encontrar no único bar\restaurante da cidade dois escritores bem famosos e, eventualmente, o personagem do Evan Peters lhe contar qual é a fórmula do sucesso (quase que literalmente): uma droga que estimula seus talentos (não somente artísticos, mas o foco aqui é esse), se você for alguém talentoso, se não for, dançou.

E esse é o enredo bem resumido. Aí você me pergunta: e cadê os personagens da Sarah Paulson e do Macaulay Culkin? Desperdiçados. Eles até aparecem bastante, mas são mal explorados. São bons personagens, principalmente o do Macaulay (como será que ele se sentiu interpretando um dependente químico?), que representa justamente a degradação que as drogas causam, e o dilema entre quebrar ou continuar no círculo. Porém, ainda acho que faltou alguma coisa, ele fica muito como “personagem de suporte” (que para nós seria “coadjuvante”, mas em inglês é chamado justamente de “support character” porque está ali para auxiliar a história ou os protagonistas). E os personagens da Adina Porter e da Billie Lourd? Aparecem em duas ou três cenas e não têm relevância nenhuma pra história. Acredite se quiser. Aliás, vou aproveitar aqui para falar das atuações, que nisso não tenho do que reclamar, embora eu tenha que dizer que o Evan Peters está de novo interpretando seu personagem da temporada Hotel. Acho até uma pena que o Finn tenha conseguido seu protagonista em uma temporada tão ruim, ele e a Lily praticamente levam a temporada nas costas, somente os personagens deles têm nuances, dilemas, conseguem sentir algum tipo de escrúpulo ou culpa antes de descambar de vez, os outros personagens não têm esse processo, são muito lineares, o que é uma pena, porque AHS geralmente consegue nos trazer bons personagens com camadas. Aliás, gostei da personagem da Frances Conroy e ela tinha um background interessante, mas, de novo, foi um personagem que poderia ter sido mais bem explorado, sua história é mostrada somente num plano sequência, não que não tenha dado para captar como ela chegou, ou não chegou, aonde está, mas não houve um processo entre a escritora fracassada e a best seller, foi realmente como se um toque de mágica tivesse acontecido.

Antes de falar da segunda parte, queria discutir algumas coisas (incoerências) que particularmente me incomodaram, então obviamente conterá spoilers.

O modo como a droga funciona. Ela tem um efeito quase que imediato, porém, no flashback, o cantor que não tinha talento demora uns dias para se transformar e é uma transformação gradual, enquanto com os outros não demorou nem um dia para que perdessem sua mente, além de que, ele precisou de várias doses, enquanto a personagem da Lily precisou de apenas uma. Não acho que isso tenha sido um “aperfeiçoamento da droga”, e sim uma incoerência proposital somente para deixar o que queriam contar na narrativa mais rápido.

A droga nem sequer faz sentido, mas até aí deixamos a liberdade poética. Mas o que não posso deixar passar são as razões da cientista. O que ela quer obter não condiz com o que ela está desenvolvendo, ou simplesmente foi muito mal explicada suas intenções. E, tenho para mim, que a história que contou do exército seja mentira. Para que eles iriam querer criar uma droga que deixasse vir à tona o que eles têm de habilidade se seria muito mais lógico e rápido (porque afinal, soldados são a massa, eles não são escolhidos a dedo para serem soldados) se criassem uma droga que lhe desse super força, por exemplo. As explicações “científicas” nem tem lógica nenhum, então nem levo em conta, mas uma coisa em especial me incomodou muito e é o próximo tópico.

Por que diabos eles precisam tomar sangue? A impressão que tenho é que depois dos vampiros cagados que fizeram em Hotel (pra mim a pior temporada depois dessa só para registrar, pior até que talvez Apocalypse), tentaram se redimir aqui e fizeram ainda pior. Isso é um dos elementos que chamo de “reciclagem”, além de falta de criatividade, poderiam ter dado um motivo muito melhor para os assassinatos. Ou ainda melhor, lançado pro espaço essa ideia da droga que só trouxe furo e ir para o clássico do pacto com o capiroto, funcionaria melhor e acho até mais condizente com o conceito da série. Mas o melhor é a explicação... falta de ferro, de vitamina, do diacho a quatro. Claro. Quem nunca esteve com falta de vitamina A e teve um impulso incontrolável de comer alface? Essa explicação não tem lógica nenhuma. Ainda que precisassem de sangue, não existe por que sentir vontade de tomá-lo. Para mim, esse foi o pior erro dessa temporada. Depois desse ponto, não estava mais levando nada a sério (e isso não deveria ser Scream Queens, deveria ser dramático, com sarcasmo sim, mas não literalmente uma série de comédia). O que foi bom porque pude levar a série até o fim por causa disso. Entendo que eles quiseram mostrar que o preço da fama é muitas vezes pautado em sacrificar a vida dos outros (não de forma literal), mas, de novo, existiam formas melhores de fazer isso que não vampiros reciclados.

Os drogados que perderam todos os seus neurônios são um desperdício. Sim, eles dão medo no começo, mas são mal aproveitados também. Além de não fazer sentido o personagem da Frances poder controlá-los, coisa que nunca é bem explicada. E, se ela pode controlá-los, poderia fazer isso de formas melhores do que para ameaçar uma mendiga. E eles realmente deveriam matar muita gente se sentem necessidade do sangue também. Mas não sei por que estou procurando coerência...

O enredo até traz umas discussões interessantes, e aí entra a personagem da Sarah que, apesar de ter o talento (mesmo que ela própria duvide disso), se recusa a usar de métodos fáceis e é uma mendiga em vez de ter alcançado a fama que deveria. Porém, sinto que tais discussões ficam muito na superficialidade, a temporada não consegue realmente se aprofundar em nada. Tem coisas que poderiam ter sido abortadas, como psicopatia na infância (impossível aquela garota não ser psicopata, parabéns para a atriz), mas isso nem sequer foi cogitado. E eles realmente deveriam ter feito uma referência a Stephen King (porque o cara literalmente escreve pra caramba a base das drogas). O personagem do Finn tem lá seus dilemas, sempre fala que vai parar (como todo bom drogado), acaba fazendo um monte de cagada, fica sempre indeciso entre a família e a fama, e tem um final que, digamos, foi simbólico. Quando a fonte se esgota, o mundo te descarta. Mas, de novo, acho que poderia ter sido feito e explorado de formas um pouco melhores. O elemento “terror” principalmente poderia ter sido mais puxado para o psicológico já que é uma temporada que trata com a mente. Em vez de algo gore, talvez essa temporada tivesse se beneficiado mais de algo mais na linha de Cult, coisa que até tentaram no começo, depois descambou de vez. O destino da personagem da Lily foi bom (“bom” não no bom sentido), porém muito previsível, mas valeu o drama. Leslie Grossman fazendo outra vilã inescrupulosa disfarçada, que ela faz muito bem, mas, de novo, já vimos isso antes e sabemos disso. Não tenho muito o que dizer da personagem da Angelica Ross, ela também poderia ter um background melhor, mas ela entrega, já está com o espírito da série na veia.

O final é desastroso. Mas consegue ser mais apocalíptico do que o que teve em Apocalipse. Na verdade, até que gostei. Principalmente a crítica aos coachs. Mas também não é para ser levado a sério. E, sinceramente, não sei bem o que deveria querer dizer. Que a busca incessante por alguma coisa leva ao caos? Que no fundo somos todos animais? Deveria querer dizer alguma coisa? (sim, eu espero um sentido maior quando se trata de AHS).

Por fim, só queria acrescentar que a ideia de sereias ou algo marinho era muito mais interessante e propícia. Mas nisso não me surpreendi, já sabia que seria um tema nada a ver com que estavam especulando. Mas, sim, o personagem do Evan Peters é uma drag quinn em dado momento. Faz diferença para a história? Não. Mas cenas de matança são sempre bem-vindas. Teria sido tão bom se tivessem aproveitado o cenário marítimo, mas não serviu de nada a não ser pra descartar corpos (que aliás, poderia ter tido um mistério de verdade em torno disso, já seria alguma coisa). Que tristeza.

 

Indo para a segunda parte da temporada...

ETs. Sim, AHS fez de novo (assim como os vampiros), mas dessa vez eles conseguiram se redimir da segunda temporada (por favor, não vá me dizer que você gostou da trama de ETs da segunda temporada... isso é literalmente a única coisa ruim e mal trabalhada que teve nela. Não tem como defender). E com apenas quatro episódios. E com a volta do Cody Fern, que acho bem relevante... porque ele interpreta um personagem importante, claro que esse é o único motivo (que sinceramente deveria estar no main cast, considerando que ali tem atores interpretando personagens bem menos relevantes...).

Com atores novos, alguns que apenas apareceram no Stories (muito fraco por sinal, tirando o episódio da Billie Lord e do Cody Fern. Seria coincidência os melhores episódios serem com atores que já integraram a série?), a trama se divide entre passado e presente. No passado, um presidente dos EUA, que deve ter sido importante mas que se dane nem lembro o nome dele, é colocado contra a parede pelos ETs para fazer um acordo. Pura teoria da conspiração. Ganhou um ponto. E a filmografia também lembra daquela época, em tons monocromáticos. Ganhou mais um ponto. E a personagem da Sarah Paulson é muito boa, tem aquela imprevisibilidade, começa como uma coadjuvante e vai ganhando seu espaço, mas, no fim, acaba não servindo de nada, mas detalhes. Essa parte do passado não me era tão interessante porque tinha muita politicagem, que sim é relevante para o que está sendo desenvolvido, com aquele toque de ironia que funciona muito melhor aqui do que na primeira parte da temporada, mas é muita encheção de linguiça no fim das contas.

No presente, temos um grupo de quatro jovens que vão viajar para o meio de um nada e têm um encontro com um OVNI e voltam desse encontro grávidos (inclusive os garotos), e eventualmente são levados a uma base militar (que base será essa?) para poderem dar à luz aos aliens, mas, a intenção deles não é exatamente reproduzir a espécie.

Eu tinha que falar. Tem uma cena muito boa envolvendo o nascimento de uma dessas criaturas. É até um pouco cruel, mas eu diria que essa temporada é bastante irônica, mesmo dentro dos padrões já estabelecidos na série.

Obviamente, o presente não aparece apenas para mostrar as consequências do passado, como terá um link mais direto com ele e vou dar o braço a torcer, foi uma boa jogada. Essa segunda parte não é incrível, mas acho que valia mais a pena ter desenvolvido ela em vez da “Red Tide”, inclusive teria sido mais interessante se tivesse havido espaço para mais personagens e para histórias de desaparecimento ou de famosos que morreram mas que todo mundo acha que houve “algo mais” com eles, pois geralmente esse tipo de história sempre tem uma teoria de abdução. AHS perdeu uma grande oportunidade nesse sentido. Uma pena mesmo.

Bom, “Death Valley” tem defeitos também, mas nada que tenha me deixado tão abismada quanto a anterior. Vou apenas dizer que o personagem da Lily foi mais um desperdício da temporada como um todo de desperdícios, e o da Angelica Ross também podia ter sido mais bem explorado (cadê o background dos ETs???) e que a Leslie Grossman mais uma vez roubou a cena, fazendo uma personagem boazinha dessa vez, veja só. E, vou acrescentar, o ritmo dela me pareceu bem lento, foram quatro episódios, mas parece que assisti à primeira parte muito mais rapidamente (bom, é ruim, mas é envolvente, tipo “Roanoke”. A única que é ruim e pouco envolvente é “Hotel” mesmo), e isso incomoda um pouco.

E, não vou dizer que amei, mas o final foi muito bom. Dava até para fazer uma continuação. E, quem sabe, dessa vez não teríamos criaturas diferentes e não uma Sarah Paulson mendiga ou dona de casa dos anos 50?

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