Moon Shines Upon Sinners
Capitulo 2 – A Cidade Enclausurada Que Reflete a Luz
-Nada como umas boas compras após uma prova estressante!
-Eu meio que ainda me sinto inconformada sempre que lembro que a Redoma possui um shopping Center.
-Mas isso é uma coisa boa, não há como negar! Ótima, aliás. Diga alguma coisa, Remi!
-Ah... Hã...
-Deixa pra lá...
-O elevador che... gou.
Prissa não soube mais o que dizer ao ver Ace sair do elevador. Isso é, havia outros garotos da classe de elite junto a ele, porém, Prissa conseguiu assimilar somente a presença de Ace. Pensou que deveria dizer alguma coisa. Pensou que deveria ser melhor não dizer nada, fingir que não o viu, simplesmente passar por ele e entrar no elevador. Mas, obviamente, Grace e Remi já haviam notado seu breve momento de hesitação.
-E aí, meninas? Grace, Remi. Prissa – não foi preciso, e nem deu tempo, em tomar uma atitude. Ace já as estava cumprimentando bem como se fossem colegas que conversam e convivem pacificamente. Porém, ainda é difícil para Prissa agir assim, por mais que considere seus sentimentos “superados”, agir naturalmente ainda não lhe parece natural.
Ver como ele conseguia agir sempre descontraidamente a irritava de uma maneira que não é nem capaz de transparecer.
Foi a primeira a responder ao cumprimento:
-Ah, Ace, oi.
-Nossa que desânimo, eu me sentiria ofendido com um cumprimento desses – Nino surgiu atrás de Ace, seguido por Briston, calado como sempre. Os três formam um grupo, no mínimo, inesperado. Á primeira vista. Hoje, já se tratava de algo comum.
-Ah, olá, Nino. Briston – Briston deu apenas um aceno de cabeça antes de sair do elevador atrás dos outros. E Nino apenas um suspiro.
-Eu acabo de falar que me sentiria ofendido com um cumprimento desses e você vem e faz o mesmo comigo?
-Desculpe! – Prissa o abraça como faria com um ursinho de pelúcia. No fundo, apesar de não poupar sutilezas, Prissa achava Nino muito fofinho. – Nino, como está hoje? Conseguiu se sair bem no exame teórico?
Prissa não conseguiu conter uma olhada de canto de olho para Ace. Porém, ele mal parecia notar o que acontecia ao seu redor. Grace estava dizendo algo a ele, que parecia responder distraidamente, para não dizer “indiferentemente”.
-Agora, isso é um pouco exagerado – Nino a afasta, enrubescendo, escondendo o rosto sobre a aba do boné para que ninguém percebesse. – E não me pergunte daquele maldito teste teórico!
-Falhar miseravelmente – e quando Briston falava, era sempre impactante, curto e grosso.
-E você aí volte a ficar na sua!
Prissa deixou os dois de lado quando apurou seus ouvidos para a voz de Ace, que ao contrário de antes, havia adquirido um tom de interesse:
-Sabe como está Hera? Soube que ela não compareceu ao exame prático porque estava doente.
-Bom, ela ficará bem, pelo o que parece. Mas ainda não sei o que ela fará quanto ao exame. Seria uma pena ser reprovada só por causa de uma coisinha dessas...
-Ela não será. É uma boa aluna, quase tão boa quanto Zara – e esta última palavra tinha um tom diferente de provocação. – Tenho certeza que os professores lhe darão outra chance.
-Ah, que a Lua o escute. Sim, Hera é boa. Mas ainda vai precisar de muito até alcançar a minha – devolvendo o tom de provocação – Zara.
-Você é incrível, Grace – Ace falava como se comentasse sobre o clima. – É uma lástima que não se esforce para ser tão boa quanto “sua” garota.
-Você já ouviu falar que todo casal precisa de equilíbrio? Deixo pra Zara ser a certinha responsável, eu prefiro ser só a preguiçosa mesmo.
Ficaram enrolando tanto tempo na frente do elevador que este subiu, desceu novamente e mais alguém saiu de dentro dele.
Jagger. Remi, que antes estava apenas pensativa e alheia ao seu redor, ficou de repente consciente daquela presença e parou de chacoalhar o corpo entediada, parou de pensar, parou até de respirar, até que Jagger passasse por ela. Ele estava olhando para ela, não estava? Remi o seguiu com os olhos, aguardando. Jurava que lhe diria alguma coisa sobre ontem. E quando Jagger passou por ela, nem sequer abriu a boca. O máximo de reação foi um aceno breve de cabeça, como se ele reconhecesse sua existência, e apenas isso. Remi ficou desapontada e engoliu um suspiro. Após se recompor, se voltou para onde ele tinha ido e Jagger não olhou para trás nem demonstrou nada por nenhum momento.
-Hora de ir embora. Até mais, garotas – Ace se despediu e Nino e Briston o acompanharam. Prissa e Remi mal notaram quando a conversa terminou.
-Babacaaaaa – Grace mostrou a língua para as costas de Ace. – Metido arrogante.
Obviamente, Grace não gosta de Ace. Só é preguiçosa demais para jogar isso na cara dele.
-Por que vocês não falam nada?
Tanto Remi quanto Prissa não tinham nada a dizer, assim, seguiram em silêncio até dentro do elevador.
*
Hera não aguentava mais tanta tontura e ter que ir vomitar de meia em meia hora. Mas era melhor assim. O que são dois dias perto do que poderiam vir a ser meses? É verdade, perdera o exame prático, mas melhor perdê-lo a correr o risco de ter um ferimento grave, ser levada ao hospital e descobrirem que estava grávida. Maldita hora em que fora descobrir que estava grávida. Estava determinada a neste período tomar o lugar de Zara como melhor da sala. Determinada. Mas, no fundo, ainda não se sentia segura o suficiente para tal, apenas sabia que daria além de seu melhor.
Estava despida, além de tonturas e náuseas sentia muito calor, deitada quase em posição fetal nos azulejos azuis e brancos do banheiro. Como conseguiu chegar a esse ponto? Questionava-se. Não tinha sentimentos culpados ou conflitantes de tirar algo de dentro de si, não vivo ainda, que começava a ganhar vida, fez o que tinha que fazer e ninguém a julgaria, porque ninguém nunca saberia. Assim que melhorasse e conseguisse repor o teste prático, seria página virada, mais uma mágoa amarga deixada para trás. Apenas Hana sabia, afinal seria difícil esconder isso de com quem se divide o quarto e assistiu a uma cena bem nojenta e que não deixava muita vazão para qual seria o problema. Mas ela não abriria a boca. Hera sabia os podres de Hana tão bem quanto Hana sabia os dela. Talvez, até pior. Porque Hana não é o tipo que gosta de se expor, e seu namoro secreto seria sem dúvida motivo de muita fofoca. E Hera? Já estava acostumada a ser comentada. Felizmente mais por motivos “positivos” a negativos. Em geral, é conhecida como a garota mais bonita da turma de elite, a de pele muito clara, cabelos muito escuros e levemente ondulados, de faces rosadas, lábios chamativos e olhos unicamente intensos. Com uma aparência assim, poderia ter escolhido qualquer um. Porém, pelo visto, havia escolhido errado.
Ela tem isso dentro de si. Um buraco que não pode ser preenchido, mas temporariamente tampado. A necessidade da perfeição. E, também, outra necessidade.
Agora já é tarde demais para se lamentar, assim, Hera já está pensando do que fazer a seguir. Não poderia voltar para ele, terminou tudo logo que descobriu que estava grávida, e não voltaria de qualquer maneira, Hera quer ser a melhor, e para isso, também quer ter o melhor ao seu lado.
Era estranho como pensamentos assim a confortavam em momentos agonizantes. Logo iria passar. Já havia sofrido coisas bem piores. O que importava era se reerguer para alcançar lugares ainda mais altos.
Ele também não abriria a boca, estava segura.
Mas, segura, era algo que Hera jamais se sentiu. Não até que pudesse chegar até onde desejasse.
Apenas esperava que pudesse se retratar no teste que perdeu, que após esse dia, não restasse vestígios do que havia acontecido com seu corpo. E que, nunca, nunca mais, desse um vacilo desses. Recordaria desse erro pelo resto da vida e não aceitaria cometê-lo de novo.
*
Antes de bater na porta, Hana ajeitou sua saia. Não havia o porquê de estar fazendo isso, não é como se estivesse indo a uma reunião chata que era obrigada a suportar. Não precisava ter esse tipo de postura, ali. Pensou que deveria fazer o contrário. Só para ser um pouco provocativa, para variar. Olhou bem para os lados, para ver se ninguém aparecia, mas ninguém aparecia por ali, ainda mais a essa hora da noite. Subiu a saia fazendo dobras na cintura, até chegar à altura das coxas, só aí bateu a porta.
-Ora, ora. Olha só quem está aqui. Veio me dar uma bronca, presidente? – Hana odiava ser lembrada que era a representante feminina de sua classe, fora escolhida por mera matéria do acaso, os professores disseram que qualquer um deles tinha encargo para isso, afinal são a classe de elite e que, portanto, os escolhidos seriam sorteados (mais um motivo da classe de elite odiar sorteios), Jagger sabia disso; e este é justamente o motivo de chamar Hana desta forma.
-É, pode ter certeza disso. Isso é maneira de abrir a porta? – Hana dá uma boa olhada em Jagger de baixo à cima. Está todo molhado, água pingando pelo seu cabelo e pela barba por fazer de muitas semanas, e com uma toalha, pequena demais para seu corpo, cobrindo sua cintura. - E se fosse outra pessoa?
-Vamos combinar que só poderia ser você. Quem mais viria aqui? Ainda mais a essa hora.
-Nossa, você é tão ruim que nem tem amiguinhos para vir te ver?
Foi a vez de Jagger devolver a olhada que recebeu.
-Quem é que precisa de amigos com tudo isso aí? Além disso, ninguém mais sabe a senha secreta. Pergunta secreta para a senha secreta: o que veio fazer aqui?
-Se é uma senha já não precisa ser chamada de “secreta” – Hana revira os olhos. – Precisamos mesmo de todo esse teatrinho?
-Até quando ninguém está olhando você faz questão de ser tão chata? Vamos gata, você sabe o que quero ouvir. Nós dois sabemos o que você quer, mas eu quero ouvir.
-E você é sempre tão narcisista. Eu quero você. Feliz agora?
-Ainda não – e então Jagger puxa Hana pela cintura, fechando a porta atrás dela, e a envolvendo e a beijando rapidamente. – Agora estou começando a ficar.
-Não diria que “feliz” é a palavra certa para o que você está começando a ficar – Hana vai o empurrando para trás até que alcancem o sofá, onde ela empurra Jagger com mais força até que caia. Então, se coloca por cima dele.
-Olha só quem fala. Nem começa uma conversa já quer vir tirar uma casquinha de mim. Isso é abuso de poder, presidente.
-Você sabe que não costumo vir aqui para conversar. Vamos fazer jus a sua senha “secreta” idiota – diz e arranca a toalha da cintura dele.
Esse era o motivo de Hana deixar que Hera ficasse a vontade no quarto delas, porque ela mesma não passava muitas noites por lá, não noites inteiras ao menos. Porém, mesmo Hera não sabia de seu lance com Jagger, ninguém sabia, era um lance “secreto”.
Após transarem loucamente, enquanto Hana vestia as botas, começou seu mesmo discurso de sempre:
-Você deveria deixar minha vida mais fácil e ir ás aulas.
-Mas aí minha vida não seria tão fácil – já Jagger continuava bem “á vontade” deitado no sofá.
-A maior parte das reuniões que EU sou obrigada a participar é só todo mundo resmungando sobre seu comportamento. Se você não existisse, em cinco minutos, estaria livre.
-Mas se eu não existisse, sua vida seria bem menos interessante. Quem iria te oferecer os prazeres carnais, gata?
-Qualquer um. Não fique achando que você é tão bom assim.
-Mas quase toda noite é na minha cama que você vem parar. Ou sofá, no caso.
-Eu só me acostumei com você. Dá muito trabalho se acostumar com outra pessoa. Eu nem gosto de pessoas.
-Eu tenho a mera impressão que não existe nada que você realmente goste, fora reclamar – Hana olha para ele de cara feia, por mais que não estivesse tão errado. Os gostos de Hana poderiam ser resumidos com um “eu odeio a minha vida”. – Não me olha com essa cara, me faz ter vontade de te pegar de jeito...
E quando Jagger se esticou para beijá-la, Hana o empurrou de volta e se levantou.
-Estou satisfeita por hoje. Você só me entretém enquanto não abre a boca.
E simplesmente saiu como se fosse a dona do quarto.
Jagger adora essa garota. Por mais que se mostrasse uma aluna regular, no fundo, ela fazia o que queria, de um jeito que Jagger jamais poderia fazer sem ser tachado de “o mais encrenqueiro da classe de elite”.

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