Jennifer

 


 

Jennifer é uma história de terror sobre um homem que salva a vida de uma garotinha horrendamente deformada. É baseada em um velho quadrinho de terror de Bernie Wrightson, o qual é considerado um dos quadrinhos mais assustadores já feitos. Mais tarde, foi adaptado para um episódio de “Masters of Horror”.

 

Um dia, estava caçando na floresta quando ouvi um som estranho, distante. Pareceu com uma garota chorando. Segui o som até uma clareira em meio ás árvores.

Vi algo que me deixou chocado.

Havia um homem sobre uma garotinha. As mãos dela estavam presas para trás e seu corpo estava estirado sobre um toco de árvore. O homem carregava um machado em suas mãos. Parecia que estava prestes a matá-la.

-Você aí, pare! – berrei. – Largue o machado ou atirarei!

Ele não me deu atenção.

Dei um tiro de aviso no ar.

O homem nem sequer olhou para mim. Havia uma estranha insanidade em seus olhos.

-Estou avisando! – berrei.

Levantei meu rifle e mirei.

O homem ergueu o machado acima de sua cabeça.

Apertei o gatilho.

Bang! Uma bala atravessou seu peito, derrubando-o no chão.

Corri até a garota que soluçava. O homem estava caído ao lado dela. Seus lábios estavam se movendo e estava tentando falar.

-Jennifer... – grasniu.

Então, fechou os olhos e deu seu último suspiro.

Quis verificar se a garota estava bem, mas, no instante em que pus meus olhos sobre ela, me encolhi de horror.

Era a visão mais horrenda que já presenciei. Seu rosto era horrivelmente deformado. Fazia meu estômago revirar só de olhar para ela.

-Você está bem? – balbuciei. – Ele te machucou?

A garota era incapaz de falar. Parecia que não conseguia entender nada do que eu dizia.

Queria ir até as autoridades, mas fiquei temeroso que a polícia não acreditasse em mim. E se me acusassem de assassinato? Não havia outras testemunhas. A garota não poderia dizer a eles o que realmente aconteceu. Não tive escolha.

Decidi manter segredo. Deixei o corpo do homem onde estava caído e o cobri com folhas. Levei a garota para casa comigo. Não havia mais nada que pudesse fazer.

Achava que minha esposa e filhos entenderiam, porém, no momento em que pousaram os olhos em Jennifer, ficaram horrorizados. Disse a eles que ela ficaria conosco por um tempo.

As semanas seguintes foram um verdadeiro inferno. As crianças não suportavam olhar para o rosto nauseante de Jennifer. Minha esposa me implorou para que me livrasse da criatura horrenda. Disse-me que estava destruindo nossa família. Não conseguíamos dormir. Não conseguíamos comer. A vida se tornou um pesadelo sem fim. Tudo por causa de Jennifer.

Tentei levá-la a um orfanato, mas ela se recusava a deixar a casa. Toda vez que tentava levá-la, ela se segurava em algum móvel e mordia e arranhava e chutava. Então, me olhava com aqueles olhos bulbosos e lágrimas começavam a escorrer por suas bochechas distorcidas. Desisti. Apenas não tinha a coragem de me desfazer dela.

Minha esposa eventualmente ficou cansada das desculpas e me deixou. Levou as crianças com ela.

Estava determinado a me livrar de Jennifer de uma vez por todas. Fui a um circo errante e convenci o dono a levá-la. Disse a ele que podia exibi-la no show dos horrores. Dei direções de como podia chegar a minha casa e lhe entreguei as chaves.

Afastei-me de casa por três dias. Quando eventualmente voltei, a casa estava vazia e as chaves estavam embaixo do capacho na porta de entrada. Deixei escapar um suspiro de alívio. Finalmente, estava livre dela.

Iria chamar minha esposa e dizer a ela que tudo estava resolvido e que podia trazer as crianças de volta. Primeiramente, quis pegar uma bebida. Abri a geladeira e gritei de susto.

O corpo mutilado de um homem estava preso dentro da geladeira. Era o dono do circo. Estava coberto de sangue e seus intestinos se arrastavam para fora. Ele havia sido parcialmente comido.

-Jennifer – grasni.

Aquela noite, sobre a cobertura das trevas, enterrei o corpo dele no jardim dos fundos. Jennifer apenas ficou parada na janela, observando.

Estava no fim da minha sanidade. Não havia como me desfazer dela agora. Ela permaneceu ao meu lado, me arrastando para baixo como uma âncora em torno do meu pescoço.

Comecei a beber pesadamente. Não queria mais pensar. Não queria mais lembrar. Em uma mente enevoada pelo álcool, cada dia se misturava com o seguinte.

Então, um dia, vi o jornal.

“Outra criança desaparecida,” dizia a manchete.

Tive um pressentimento ruim na boca do estômago. Fui procurar Jennifer, temendo o que poderia encontrar.

A porta do porão estava com uma fresta aberta. Quando a abri, fui recepcionado por uma visão horrível. Jennifer estava agachada na base das escadas. Conforme meus olhos se ajustavam à escuridão, vi o que ela estava fazendo lá embaixo. Estava se alimentando do corpo mutilado de um garotinho.

O que aconteceu em seguida foi como um sonho. Lembro-me de ter pego um machado. Lembro-me de pegar Jennifer pelo braço e arrastá-la para fora de casa. Lembro-me de ela me encarando com aqueles olhos horrendos.

Então, de alguma forma, estávamos na floresta, longo, bem longe da minha casa, e estava atando as mãos de Jennifer atrás de suas costas.

Estirei o corpo dela sobre um toco de árvore e peguei o machado.

Enquanto o erguia acima da minha cabeça, ouvi a voz de um homem gritar:

- Você aí, pare!

Estava tão intencionado no que deveria fazer que não lhe dei atenção.

Um tiro soou.

Então, repentinamente, estava estirado no chão, tossindo sangue. O homem parou sobre mim.

Conforme a vida deixava minhas veias, tentei avisá-lo, mas não consegui falar. Tudo que pude murmurar foi uma única palavra:

-... Jennifer...

 

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