Fragmentos da Noite 2

 

Capítulo 2 – Mais um belo estranho. Uma seita. E uma sociedade secreta

 


 

Livre, livre, liberdade! Eu sempre soube que morar sozinha seria um sonho. Sinto como se eu fosse a dona do mundo. E tudo que fiz foi... dormir até tarde (as aulas já terminaram, mas a formatura é só semana que vem). O que posso dizer? Não sou do tipo que daria uma festa. Em primeiro lugar porque Clarice é praticamente minha única amiga (e ela é certinha demais para ir dormir depois da meia-noite... brincadeira), em segundo porque odeio gente e barulho. Pra mim, isso que é vida: esse silêncio. É uma paz sem meus pais brigando por qualquer coisa... e depois estranho. Vou demorar mais dois dias até me acostumar com isso. Nada como ficar na sala lendo um livro enquanto ouço música com fones (sim, eu sei. Parece um plano chato qualquer. Mas isso é tudo que minha preguiça me permite).

Tem uma única coisa que gostaria de fazer sozinha e que não tenho coragem de fazer na frente dos outros: cantar (as pessoas próximas a mim não acreditam, mas sou muito tímida).

Estive cantando enquanto lia e vou cantando enquanto subo até meu quarto e começo a trocar de roupa (não dá pra sair de casa de pijama por mais livre que me sinta). Só porque estou morrendo de fome. E vou precisar de suprimentos pro resto da semana. 4 litros de sorvete deve dar conta do recado (pelo menos por dois dias). E já estou cansada de não fazer nada. Uma volta pra dar uma espairecida parece uma boa.

Caraca. Já é final de tarde, dormi mesmo. Ainda bem que não preciso dar satisfação pra ninguém. Outra coisa que amo e que minha mãe odeia que eu faça (segundo ela é perigoso, mas Twilight Viel é tão entediante que nem serve pra ter perigo): caminhar durante a noite. Assim, fico enrolando antes de voltar para casa, pegando os caminhos mais longos até o mercado, e depois indo pelo caminho mais curto porque não quero que meu sorvete derreta, óbvio.

Paro com as chaves de casa no ar. Sinto que tem algo errado. Na escuridão que está aqui fora, refletindo a escuridão que está ali dentro, tenho a sensação de ver algo se mexendo. Deve ter sido só uma impressão, mas é como se um alarme dentro de mim tivesse se acionado e eu não consigo me obrigar a abrir a porta. Dou a volta na casa, indo para a cozinha. Tenho uma técnica para abrir a janela por fora e poder entrar por lá (é algo que estive reservando para quando quisesse sair de casa escondida, mas por que eu faria isso? Só pela adrenalina da situação não valeria o risco. Não teria para onde ir, apenas para a casa da Clarice, mas esse é o único lugar no mundo onde minha mãe deixa que eu vá a qualquer dia e a qualquer hora, ou o que fazer, e agora, já com quase 18 anos e quase formada, parece algo completamente bobo de se fazer).

Em silêncio, abro a janela e me apoio no parapeito para poder subir. Deslizo para a pia e a fecho sem fazer barulho, sem passar a tranca caso eu precise fugir. Quando estou descendo da pia, a luz de repente se acende.

-Ora, você demorou demais. Estive esperando esse tempo todo por você.

Meu coração dá um triplo mortal. Um porque de fato tem um estranho na minha casa. Dois porque levei um susto do caramba. E três porque o cara que está me dizendo isso é super gato. Gato, gato, gato mesmo. Talvez até mais bonito que Zank (aliás, quais são as possibilidades de encontrar dois bonitões em dois dias e um deles estar te esperando na sua casa?! Não, eu não tenho essa sorte).

-Poderia ter esperado lá fora. É falta de educação de entrar sem ser convidado – mas é claro que eu não daria mole só por causa disso.

-Verdade – ele ri como se eu tivesse contado uma bela de uma piada. – Mas estava ansioso demais – gato, mas estranho. Melhor não dar muita confiança.

-Mas já que está aqui, o que quer? – levo uma das minhas mãos até minhas costas, tenho uns atalhos loucos no celular que sei fazer certinho sem olhar para poder ligar para a polícia (coisa da minha mãe, claro), estou prontinha caso ele tente alguma coisa. Se for rápida, dá até para fugir do mesmo lugar que vim.

-Ora, eu vim conversar, é óbvio – “óbvio”, sei.

-Eu não converso com estranhos... – Zank foi uma exceção, mas ninguém precisa saber disso.

Num momento de distração (de bobeira), ele chega até mim, segurando minha mão, forçando um cumprimento. Seus dedos são frios, mas a sensação não é de toda ruim... Ai que vacilo. Agora não será mais tão fácil fugir. Porém, apesar de estranho, ele não apresentou sinais agressivos... Ainda.

-Nocturnal. Agora não somos mais estranhos, - ele me olha bem fundo nos olhos com aquele belo par de olhos violetas (dois caras gatos em dois dias com dois pares de olhos deslumbrantes. Volto a repetir: eu não tenho toda essa sorte) – pequena Faye.

-Como sabe meu nome? – agora estou começando a considerá-lo perigoso. Ele ainda segura minha mão, apesar de frouxamente.

-Eu vi uma garota loira te chamando assim – ah, Clarice. Epa! Isso significa que...

-Você é um stalker! – ele volta a rir de mim.

-Talvez em outra vida, eu perseguisse uma garota bonita como você – e de novo um cara gato diz que sou bonita (nunca mais terei problemas de autoimagem, não que eu me achasse feia antes. Acho que os caras na escola nunca chegaram em mim porque sou intimidadora, ao menos segundo Clarice). – No entanto, meu interesse em você é outro. Preciso de sua ajuda, pequena Faye. Somente você pode nos ajudar.

-Por que só eu? E como assim “nós”?

-Já gostei de você, é ligeira. Então para que esconder? Porque precisamos de uma fada, e fadas hoje em dia são extremamente raras...

-Espera aí! Sem essa de “fada”! – parece papo dos meus pais quando eles estão meio doidos. – Não vai me dizer que você é um daqueles doidos que acreditam naquelas histórias velhas?

-Ah. Deve ser triste viver num lugar onde magia é proibida. Entretanto – diante dos meus olhos, com a mão livre, ele faz surgir chamas azuis pelos seus dedos. Ok, pode ter uma explicação mais plausível para isso. – não significa que ela não exista. Nem tente. Não há nenhum “truque” nisso. Nenhum que possa ver pelo menos.

-Mesmo se esse papo louco fosse verdade, eu obviamente não sou uma fada. Sou apenas uma garota comum! – o velho papo de sempre.

-Ah, mas você não é. E não é uma fada qualquer. Pergunte para sua mãe, acho que no fundo você sabe quem ela é de verdade – essa afirmação soou terrivelmente sombria. E pior, algo dentro de mim começou a fazer uma ligação e começou a acreditar no que ele dizia. – Mas vamos ao que interessa. Terá muito tempo para se conformar.

-Provavelmente não acredita na existência do Continente da Noite, mas ele também existe. E como o nome que lhe foi nomeado, a maior parte do dia é noite. Agora imagine uma eterna noite, onde não houvesse dia, somente as trevas e a escuridão. Nós queremos ressuscitar a escuridão e somente você tem a chave até ela.

-Que papo doido. Por que eu faria isso? Pra que vocês desejam isso?

-Porque nós somos bruxos que servimos às trevas.

-Tipo uma seita? – aquela risada de novo.

-Tipo isso. Mas está um pouco além da religião. Aqui o bagulho é concreto.

-E se eu me recusar? – ele pressionou apenas um pouquinho minha mão ainda presa à dele – aquele olhar que me dirigiu disse tudo. Engoli em seco.

Eu falei que não tinha tanta sorte! É óbvio que ele iria querer me matar, ou coisa pior!

-Não vou te machucar. Só te forçar a vir comigo.

-Você fala isso como se não fosse tão ruim! Vai saber o que vai fazer depois! – tento me desvencilhar dele, mas obviamente, mesmo não me segurando com tanta firmeza, ele é mais forte que eu. Plano B. Começo a me afastar, indo para trás, o arrastando comigo (isso dá para fazer mesmo sendo fraquinha). Eu tenho certeza que vi uma faca no escorredor de louça, um pouco mais pra direita na pia.

-Espere só até Jinx dar as caras. Ela não tem a mesma paciência que eu. Vai querer arrancar seu nariz. Então é melhor que venha comigo logo.

-Me solte! Não vou falar de novo.

Com a minha mão livre, consigo alcançar a faca, bem no momento em que ele me puxa contra si. Meu corpo age no automático. Ergo meu braço e desço a faca sobre o rosto dele. Ele me solta no ato e dou dois passos para trás, a faca ainda na minha mão, pingando sangue (ergh), achei que a tivesse cravado no rosto dele, mas apenas cortei. Bem, meu braço está tão trêmulo e o sangue viscoso está deixando minha mão escorregadia que não acho que terei firmeza por muito mais tempo para segurar qualquer coisa que seja.

Quando ele afasta as mãos do rosto consigo perceber que eu não o peguei de raspão, de algum jeito, eu fiz um corte BEM feio. O lado esquerdo inteiro do rosto dele está coberto de sangue, está escorrendo sangue por seus dedos e pelo queixo. Quando sorri, até sua boca fica mergulhada em sangue. Agora sim deixo a faca cair (burra) enquanto levo a mão à boca.

-Ora, não é que você não estava mesmo de brincadeira, fadinha.

-Ai, caramba! Me desculpe! – ok, ele queria me sequestrar e fazer não sei mais o que comigo, mas acho que exagerei. Era só pra dar um susto, não pra manchar os azulejos da cozinha de sangue.

-Nocturnal! – e aí que surge mais um estranho. Uma garota. Mesmo com a mesma capa negra que ele usa e com o capuz sobre o rosto, ainda dá pra perceber pela voz. Ela para na porta da cozinha. O cara, Nocturnal? (não havia registrado o nome dele na primeira vez que o ouvi, não parece nome de gente), esconde o rosto debaixo do capuz. – Por que está demorando tanto? Era só pra pegar a garota e sumir!

-Muito política você, Jinx.

Por baixo do capuz, consigo sentir os olhos dela me encarando. Sem tirar os olhos dos dois, começo a subir na pia, sem perder tempo de me abaixar e pegar a faca.

Noto que aos pés dela sua sombra parece se mexer, mesmo que ela não esteja se movendo, até se dividir em duas e começar a se distorcer. Quando a sombra dividida começa a criar uma forma, isso é, ganhar uma terceira dimensão, não espero para ver no que aquilo está se transformando. Abro a janela com tudo e saio, sem me preocupar em fechá-la.

Nem foi preciso. 3 metros à frente e ouvi a janela se partindo. Não quis olhar para trás para descobrir como. Continuei correndo. Não importa para onde, só tenho que despistar o que está atrás de mim, seja lá o que for! (e nem quero descobrir).

Enquanto passava na frente da casa de Tio Michael e Tia Magda (sim, somos vizinhos), Clarice brotou do nada ao meu lado:

-Faye! Pra que tanta pressa? Não ouviu eu te chamando?

-Clarice, não é uma boa hora. É uma péssima hora na verdade.

Não sei se por causa da aproximação de Clarice, diminui a velocidade ou seja lá o que aconteceu, mas uma sombra, que nitidamente não pertencia a nenhuma de nós duas, tinha mais a forma de um cão enorme, surgiu a nossa frente. Peguei no braço de Clarice e nos guiei por uma viela que daria atrás do shopping, um lugar bem sinistro e vazio. Mas foi a única rota em que consegui pensar fora a que estava bloqueada.

 -Faye, para onde está nos levando?

-Sei lá! Para o shopping onde poderemos despistar aquela coisa!

-Mas, Faye, o shopping já está fechando.

Ah droga! Droga, droga! Havia esquecido desse detalhe. Deve estar quase vazio. Sinceramente, nem sei que ajuda eu deveria procurar, mas a ideia de ter mais gente parecia melhor que pouca gente (eu pela primeira vez na vida querendo estar num lugar lotado).

Numa rua mais aberta, mas ainda assim deserta, pois ela ficava entre as costas de vários prédios velhos e vagabundos, do tipo que era pra haver escadas de emergência desse lado, mas que mal havia janelas, a sombra volta a se materializar a nossa frente. Desta vez não temos escolha senão voltar. Ah, mas olha só. A outra sombra está atrás de nós. Estamos cercadas.

-Clarice, foi muito bom te conhecer. Me perdoe por ter pegado um dos CDs do seu pai emprestado, sem ter pedido emprestado.

-Faye! Eu sabia que alguém tinha mexido neles! Não acredito! Você, minha melhor amiga, jamais esperaria isso de você! – bem, nos meus últimos momentos de liberdade, o exagero de Clarice conseguiu arrancar um sorriso do meu rosto.

-Você vai me perdoar. Um dia. Porque somos melhores amigas. Você é a melhor amiga que já tive, Clarice.

-Eu sou a única melhor amiga que você já teve. Mas por que esse papo deprê do nada? Faye, você está muito estranha hoje!

Como que para confirmar o que dizia, a sombra a nossa frente adquiriu uma forma, bem, ela ainda parecia um vulto, parecia não ter preenchimento, mas agora tinha espessura e altura e aos poucos se transformava numa criatura semelhante a um cachorro bem grande. Quando abriu o que deveria ser a boca, provou que tinha dentes muito mais afiados do que de um cão. E suas unhas também surgiram como navalhas entre suas patas, e uma fumaça da mesma cor que ele subia de suas narinas.

-FAYE, O QUE É ISSO?!

Me virei de lado para que pudesse ficar de olho nas duas criaturas. Elas não tinham olhos, mas pareciam estar com a visão cravada em mim. Dei um passo para trás e elas deram um passo em minha direção cautelosamente. Empurrei Clarice com tudo para frente enquanto as duas sombras me cercavam contra a parede.

-Corre, Clarice! Salve sua vida, busque ajuda, sei lá, faça qualquer coisa!

Clarice correu, não deu para ver exatamente a reação dela, estava com os olhos cravados nas criaturas como elas em mim. Quando uma avançou sobre mim, consegui ser rápida o bastante para passar por debaixo dela e voltar a correr.

Ela acabou pegando no meu braço de raspão, nem deu para sentir o corte, mas enquanto corria, pude ver o sangue escorrer abaixo do meu ombro. Ok, é perto do ombro, dá para esconder, dá para consertar a janela da cozinha, meus pais nem vão desconfiar que uma seita do mal invadiu nossa casa (pensar no futuro nesse momento me reconforta).

Vejo uma sombra se movendo ao meu lado, tão rápida quanto um flash de luz. Logo ela está a minha frente, tomando forma novamente. Ai que saco! Essas coisas conseguem se mover bem rápido quando querem, fugir parece perda de tempo. Começo a olhar para os lados em busca de alguma coisa para usar como arma, mas, só há umas caixas bolorentas e não tem como eu ficar fuçando dentro delas, vou ter que voltar a correr.

Caio com tudo no chão (só não digo que foi de cara, porque consegui apaziguar minha queda com as mãos), algo está preso a meu tornozelo, algo bem pesado. Uma nuvem negra está envolvendo meu tornozelo, de alguma forma sei que é a sombra (até porque ela sumiu).

E veloz como a luz, a outra sombra chega até minha frente (de novo a mesma cena). E eu não consigo me levantar, por mais que tente. Sinto minhas duas pernas formigando, sem força nenhuma. Que sensação horrível. Tudo que posso fazer é ficar, inutilmente, me engatinhando para trás.

De repente, a sombra se desfaz em uma nuvem negra e Clarice está diante de mim com um cano enferrujado na mão.

-Clarice! Você voltou por mim! – fico emocionada que até poderia chorar se minha adrenalina não tivesse tão alta.

-Mas é claro! Não ia te deixar pra trás! Até porque você ainda tem que contar o que está acontecendo! – e me estende a mão. Não sei se vai adiantar de muita coisa, mas acabo tentando. A sombra deixa minha perna e consigo levantar com facilidade. Hum. Está fácil demais.

EU SABIA QUE ESTAVA FÁCIL DEMAIS.

As sombras mudaram suas formas e se fundiram uma a outra, formando um círculo entre nós. Elas se moviam como chamas, se elevando tanto acima que não daria para saltar. Não sei se isso significa alguma coisa, mas não parecia boa ideia tentar descobrir.

-E agora, Faye? – Clarice como sempre com seu timing perfeito.

Assim que fez a pergunta, uma lâmina cortou entre as sombras. Elas voltaram a serem duas, na mesma forma canina de antes, mas uma agora estava manca. E o herói que brandia a espada e se punha a nossa frente para nos proteger...

-Zank!

-Eu disse que nos veríamos de novo – apesar de não tirar os olhos das sombras, ele moveu um pouco a cabeça para o lado de modo que pude ver seu sorriso convencido.

-A coisa pode ficar feia por aqui. Sugiro que corram enquanto os distraio.

Ele não precisou falar duas vezes. Óbvio que me preocupa deixá-lo sozinho com aquelas coisas, porém, ele parece que sabe o que está fazendo, se nós ficássemos, apenas o atrapalharíamos.

-Ah! Só pode ser brincadeira!

A sombra não manca, de novo está a nossa frente!

Porém, desta vez, ela mal havia começado a mudar a sua forma quando uma lâmina desceu do céu, decapitando sua cabeça (foi meio chocante de assistir, apesar de não ter sangue nem nada do tipo, ele apenas se desfez em fumaça).

Olho na direção em que veio a lâmina e vejo quatro silhuetas (humanas, ainda bem!).

Depois de tudo o que houve, ainda não estava pronta para abaixar minha guarda e achar que a ajuda chegou do céu. E mesmo usando de todas as minhas forças para ficar de pé, um repentino sono me abateu e não pude manter meus olhos abertos por mais nenhum segundo.

Logo havia adormecido como se eu não precisasse correr por minha vida e tudo tivesse sido um sonho.

*

Tive um sonho estranho em que um cara super gato invadia minha casa e mandava sombras tentarem me matar. Meu ombro arde onde uma delas havia me pego de raspão. Meu corpo está tão pesado como se realmente tivesse corrido tanto assim. E... é, não foi um sonho.

Acordo já saltando para trás, pronta para encarar o que viesse, mas acabo batendo minhas costas com tudo em algo duro e viro para o outro lado, onde bato minhas costas de novo. Será que o tal de Nocturnal havia mesmo conseguido me sequestrar e me guardou dentro de um cubículo? Péssimo!

-Calma. Calma. Está tudo bem agora – essa voz já está começando a se tornar familiar. Antes de meus olhos se focassem e eu pudesse ver Zank, eu já sentia suas mãos quentes sobre meus braços, me pressionando levemente.

E aí, para minha humilhação, me toquei que havia batido minhas costas primeiro na cabeceira da cama e depois na parede. Não acredito que deixei alguém ver isso!

Me permiti relaxar por um momento, apoiando minhas costas para trás e respirando fundo, até porque, me sinto tão esgotada que acho que não conseguiria ir muito longe de qualquer forma.

 -Que confusão que você foi se meter, hein?

-Não foi porque eu quis – respondo ríspida a essa afirmação irônica. Não acho que o que me aconteceu seja motivo de piada.  –Onde estou?

Paro para analisar ao meu redor e vejo que estou no que parecer ser um dormitório minúsculo e desocupado. Mesmo na cama só há um lençol e um travesseiro, na escrivaninha do outro lado não há nada, tem um armário também que imagino que esteja vazio, e Zank sentado a minha frente, ao pé da cama.

-Para eu responder a essa pergunta, terá que me contar primeiro o que houve com você, e jurar segredo sobre o lugar onde estamos.

-E se eu não quiser?

-Vou te colocar para dormir de novo e te jogar desmaiada na rua – tem como não ficar convencida com isso? E ele ainda tem coragem de sorrir para mim, bem claramente de um jeito “você não tem escolha, docinho”. E o que importa, afinal? Quem acreditaria em tal história maluca?

-Bem, teve esse cara de uma seita do mal que invadiu minha casa... – e assim conto tudo a Zank que, para com as piadinhas e fica sério (agora que ele vai me colocar para dormir e eu vou parar num hospício).

-Depois de tudo isso, você deve saber que é uma fada.

-Você também? E, mesmo que eu seja, e daí?

-Fadas são extremamente raras hoje em dia. Elas são encontradas apenas no Continente da Tarde...

-Continente da Tarde? O lugar dos “contos de fadas”? – não era para ter sido uma piada, eu juro.

-Sim, de fato um lugar lendário e com coisas extraordinárias, e que existe. E também o Continente Proibido, onde ninguém tem acesso, onde ninguém que vive lá já o deixou. E, no entanto, tem uma fada bem aqui na minha frente. E eu tenho como provar.

-Ah, é? – estou quase me divertindo com isso.

-Se lembra quando nós nos encontramos ontem? – apenas aceno e ele prossegue. – Aquilo que estava segurando e que começou a apitar freneticamente quando cheguei perto de você, é uma espécie de radar. Ele identifica magia. E dependendo do som que transmite, dá para determinar que tipo de criatura mágica está ao seu alcance. A vibração que ele transmitiu era de uma fada, a mais forte de todas.

-E quem me garante que esse negócio funciona mesmo?

-Funciona. Posso provar, como disse. Mas, antes, tem que fazer aquele juramente.

-Juro solenemente não divulgar a existência de criaturas que os humanos nem acreditam que existam?

-Isso também. Mas é mais simples que isso. Basta não dedurar onde fica nosso esconderijo.

-“Nosso”, de quem?

Ele dá aquele sorriso convencido de novo, vai até a porta e a abre.

-A Sociedade Secreta de Proteção a Criaturas Mágicas. Seja bem-vinda ao seu mundo, Faye.

Por um instante, sinto medo de ultrapassar aquela porta. Sociedades, seitas, não importa, nada disso é parte do “meu mundo”.

Mas acho que não posso mais dizer que eu seja a garota normal de uma vida sem emoção.

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