Fragmentos da Noite 1
Capítulo 1 – O Estranho Misterioso (E Gato)
Minha mãe teria um infarto se me visse no topo de Twilight Tower.
Mas tenho que aproveitar esta vista incrível, vai saber quando estarei novamente aqui (ok, com minha melhor amiga sendo a herdeira de tudo isso aqui é provável que mais vezes, ainda mais se o plano de tia Magda de expandir a escola para uma faculdade der certo). De qualquer forma, daqui uns dias, quando estiver formada, nada mais parecerá a mesma coisa. Tenho que aproveitar enquanto ainda posso enxergar as coisas dessa forma. E Twilight Viel adquire um brilho mágico ao final da tarde. A Árvore da Vida é tão alta que posso vê-la daqui, parecendo uma enorme nuvem verde. Minha mãe me contou que sua suposta espécie (ela sempre me contou que somos fadas, porém... sou apenas uma menina normal. Nunca fiz nada de extraordinário, obviamente, já que todos esses seres fantásticos de que meus pais me contam não existem de fato. Até tia Magda e tio Michael dizem que Twilight Tower é mágica, mas, tirando o fato de ela alcançar o céu e ainda se manter em pé, não há nada de diferente nela também. Sim, é uma escola anormalmente incrível e estranha de ser tão confortável, mas é só isso) foi quem plantou a árvore. Minha teoria é que a mesma pessoa que construiu Twilight Tower é quem plantou a árvore, a única magia das duas é terem quilômetros de altura. Esta vista é a única e maior magia que já presenciei. Agora fico imaginando como seria a vista da Árvore. Deve ser igual, só que o contrário, verei toda a Twilight Viel à distância e Twilight Tower ao fundo, igualmente deslumbrante. Seria interessante por si só ver o que há ao redor dela. Apesar das histórias contadas, meus pais nunca foram propensos a darem um passeio ali. Por que será...
Um dia. Ainda serei livre o suficiente para ir onde quero e fazer o que quero. E a primeira coisa que farei será matar aula. A segunda é ir no segundo ponto mais alto do Continente do Crepúsculo e ficar ali admirando a paisagem do nascer do dia até o cair da noite. Obviamente esse dia não será hoje. Já dei um cano em Clarice, se me demorar mais um pouco, ela me matará antes da minha mãe.
*
-Faye! Você me deixou esperando o dia todo! TODO – por que esperaria uma reação diferente de Clarice? – Onde esteve, afinal?
-Que exagero. Foi menos de uma hora. E como assim onde eu estive? Nunca sai do lugar.
-FAYE. Pela milésima vez, você sabe que é proibido ficar no topo de Twilight Tower! É perigoso! Se cair de lá, é um caminho sem volta.
-Tá aí uma coisa que não precisa falar. Mas acha mesmo que eu seria tão estúpida em cair?
-Claro que não! Mas e se alguém com más intenções fosse lá e te empurrasse? – não aguentei, tive que rir.
-Que paranoia! Eu sei que não sou lá uma pessoa muito amada, mas quem iria querer fazer isso comigo?
-Vai saber.
-Pelo amor, Clarice.
-Tá bom. Não falo mais nada. Depois, se morrer, não vem falar que não avisei!
-Pode deixar que não virei puxar seu pé durante a noite... – passo meu braço em volta dos ombros de Clarice e consigo sentir que ela tem um arrepio antes de me afastar sem muitas sutilezas (ela odeia quando a irrito e depois grudo nela. E também tem pavor de fantasmas). – Amiga, sabe que fantasmas não existem, não é?
-Que seja! Vamos logo antes que o shopping feche!
-Relaxa. Uma que nem demorei tanto assim. Outra que ainda faltam HORAS até aquela porcaria fechar.
-Não fale assim, Faye. Você sabe que meu pai construiu aquele lugar com todo o carinho porque essa cidade é um TÉDIO.
-Eu sei. Mas ele basicamente construiu a cidade inteira. Tio Michael, rei do pop, e rei de Twilight Viel – agora sim nós duas rimos.
E assim fomos para o shopping comprar o tão esperado vestido de formatura. Eu também compraria o meu. Mas não estou tão animada. Em geral, programas de garotas é que são sempre um tédio. Claro, amo comprar coisas, mas apenas comprá-las. Não passar duas horas para escolher um bendito vestido.
Eu sentia como se Clarice tivesse passado em 30 lojas e botado defeito em 250 vestidos. A maioria era “ele me deixa gorda!”, por mais que eu tivesse falado pra ela o triplo de vezes que ela não é nem um pouco gorda. Ou reclamava da cor. Falava que não realçava seus olhos. Que branco parecia que ela ia se casar, preto parecia que iria pra um enterro, e vermelho é minha cor e não a dela (não estou tão certa quanto a essa parte). Até que comecei a falar, mais pra encher o saco do que qualquer outra coisa (já que não sairíamos dali tão cedo):
-Tenho certeza que Edwing amará esse. Ele tem cara de quem curti uma patricinha que veste rosa.
-Você acha mesmo? – pobre Clarice, é tão perdidamente apaixonada por Edwing que nem percebe minha zoeira.
-Acho. Rosa combina com você – isso é verdade.
E não é que ela acabou levando o rosa claro cheio de laços e babados? Oh, Clarice. Como pretende aparecer no álbum de formatura vestindo isso? Mas adianta falar? Não adianta.
-Pronto, Faye! Agora só falta o seu. Pode ficar tranquila.
-Claro, nem perdi 3 horas da minha vida à toa. Quando eu ver o vestido certo, eu saberei. Por ora, só quero um sorvete. Não aguento mais. To morrendo de fome.
-Ok, vamos comprar seu sorvete, sua morta de fome. Mas antes preciso ir no banheiro. Me espere aqui! Não vá sair sem mim que depois vai se perder.
Só fiz um gesto com a mão de “pode ir” e fui me sentar no banco mais próximo. Eu mal havia me sentado e um celular começou a tocar que nem louco, do tipo que parecia que ia explodir. Um som tão chato que, até fiquei cismada que fosse o meu que estivesse tocando, que obviamente não era o caso, até que comecei a procurar de onde vinha aquele som do inferno para dar um olhar fuzilador para o babaca que deixa o toque do celular tão alto.
Meus olhos acabaram se cruzando com alguém inesperado.
Deixo apenas um arrependimento para trás na minha vida de colegial (fora o fato de não ter matado aula e não ter explodido nada): nunca ter encontrado alguém com quem pudesse me apaixonar. Ainda estou decidindo se gostaria de me apaixonar antes de conquistar a liberdade, afinal estaria saindo de uma prisão para a outra, ou depois que fosse livre, a liberdade sempre vem com um prazo de validade, então é bom que o motivo de abrir mão dela vala a pena. Não tive que escolher afinal. O momento parece que chegou.
Como disse, não posso afirmar que exista amor à primeira vista. Porém, quando meu olhar se cruzou com aqueles olhos azuis, tão límpidos e lindos quanto um céu no começo da manhã, senti algo que nunca havia sentido na vida. Meu coração bateu mais rápido e parecia estar dançando dentro do meu peito, minha intuição me cutucou falando em uma língua que não entendia ou que estava ocupada demais para entender, sem que conseguisse controlar o quão boba parecia, minha boca acabou se abrindo em um sorriso, e é quase como se pudesse ver, refletido nos olhos dele, meus próprios olhos brilhando. Os olhos também pareciam brilhar. Mas não sei dizer se eram assim mesmo ou se, por algum acaso, ele sentiu o mesmo que eu.
Aquele momento que parecia uma eternidade, durou apenas uns segundos. Só até aquele maldito toque voltar.
E para minha surpresa, era o celular dele! Bem... é um celular tão grande quanto um tijolo. Deve ser um Nokia.
Ele deu umas porradas no celular até que parasse de tocar (atitude que aprovei, pois faria o mesmo) e começou a caminhar lentamente na minha direção. Será que está vindo falar comigo? Ai, não dever ser. Um cara lindo desses, deve ter namorada com certeza. Ou ser um galinha. Já imaginou? Meu primeiro amor sendo um cafajeste? Não quero ter uma experiência traumática assim logo de cara. Ai, não! Ele está MESMO vindo até mim! O que faço? Será que é tarde demais para dar no pé? Clarice, cadê você quando preciso da sua ajuda? O que eu faço???
-Oi – ai caramba. Ele me deu oi! Com um meio sorriso sedutor!
-Oi – respondo de volto de um jeito estúpido. Caramba, Faye. Você não é assim. – E aí? – assim é melhor.
-Posso saber seu nome?
-Caramba, tão diretamente assim? – ah! Será que ele tá achando que só porque é gato e eu pareço uma boba que eu vou dar mole pra ele? Nada disso! – Me convença a dizer qualquer coisa. – Ok, mas... O que eu to falando?!
Ele alarga ainda mais o sorriso, aceitando o desafio. Senta do meu lado de uma maneira... todo a vontade, com o braço quase tocando nas minhas costas.
-Gosto de desafios. Mas me sinto desconfortável sem saber como te chamar.
-Começa com F. Uma dica, para ser legal.
-Tudo bem, miss F. Pra ser legal, vou te dar meu nome para que não fique perdida em como me chamar. Zank.
-Que pena, Zank, já tinha pensado em vários apelidos pra você. – Tipo Super Gato e Sorriso Seduzente, mas ele não precisa saber de tantos detalhes assim.
-Adoraria ouvi-los. Em outra ocasião. Estou meio que com pressa.
-Péssima estratégia para saber meu nome.
-Antes fosse. É verdade.
-E como saberei que não está mentindo?
-Bem, quando eu for embora daqui a 2 minutos saberá que é verdade.
-Ah – fiquei um pouco decepcionado. Vai saber quando o destino será generoso de novo para botar “Zank” novamente em meu caminho.
-Não se preocupe, vamos nos encontrar de novo – droga. Não acredito que ele percebeu. – Se você me contar seu nome... – só que não. – Ok, isso foi uma estratégia bem ruim.
-Terá que se esforçar mais, senhor Zank.
-Quem sabe outro dia – ele se levanta abruptamente. Descruzo os braços, controlando um impulso de puxá-lo de volta (e espantar o cara logo de cara), mas minhas mãos ficam coçando. As cruzo de novo. – Agora tenho que ir. De qualquer forma, foi um prazer te conhecer, miss F.
Quando ele já está a um metro de distância de mim é que resolvo dizer:
-Faye. Meu nome é Faye.
-Faye? – ele se volta para mim, mas continua andando de costas com um meio sorriso convencido. Quero só ver a hora que ele trombar com alguém. – Que nome tão bonito quanto você – e dá uma piscadinha que me faz ter certeza de que estava me paquerando. Esse cara! – Espero que nos vejamos de novo, Faye. Até mais – e antes de se voltar para frente, me lança mais um sorriso, diferente. Não era sedutor ou convencido como os outros, foi diferente.
Fico o observando até sumir de vista. Zank. Que cara misterioso.
-Eiiiiii! Estou aqui há três séculos falando com você e você aí viajando! – Clarice apareceu do nada na minha frente. É, não havia ouvido uma única palavra. Não havia percebido que ainda olhava para onde Zank foi, mesmo depois de ele já ter sumido há muito tempo (vai que apareceria outro bonitão, apesar de não achar que tenho essa sorte).
-Clarice, você não vai acreditar! Um cara super gato veio falar comigo depois que você sumiu!
-Eu não sumi, Faye. Só fui no banheiro. Mas enfim. Conte mais – e assim consigo fazer com que Clarice esqueça as gafes que dei nela hoje. – Uau. Pelo o que você falou. Eu bem gostaria de também ter conhecido o senhor Zank.
-E o Edwing?
-Eu gosto dele. Não significa que eu esqueci como se aprecia um cara gato.
-Safadona!
-Safadona é você! Não posso dar as costas por 5 minutos que já vem e me arranja um boy!
Ficamos rindo que nem umas loucas. Até algumas pessoas começarem a nos olhar como se fôssemos duas doidas (talvez sejamos) e saímos de fininho.
Felizmente, não precisamos mais bater tanta perna para encontrarmos o meu vestido. Como havia dito a Clarice, só de bater o olho já sabia que era perfeito para mim (apesar de ainda ter provado só pra pegar o número certo): um longo com uma longa fenda lateral, de um ombro só, de cetim que se ajusta ao corpo e o realça, de um azul claro, meio metálico. Chegou a hora de arrasar alguns corações (sim, é uma piada).
*
Quando volto para casa, já no começo da noite (lá vou eu levar uma bronca), sou surpreendida por um monte de malas ao lado da porta. Caramba. Eu mal me formei e já estou sendo expulsa de casa (pelo menos assim, acho que não haverá bronca).
Ouço as vozes de meus pais vindas da cozinha. Pressentindo o pior, tento passar de fininho e ir direto lá pra cima. Obviamente, minha mãe me flagra sem eu nem surgir no seu campo de visão:
-Faye, querida, venha aqui um instante.
Eu nunca sei quando esse “querida” é uma forma carinhosa de me chamar ou um “você está morta”.
-Sim, mãe?
Ela deixa a louça de lado e faz um gesto para que eu me sente. Sento do lado do meu pai que, perdido nas notícias de jornal ainda não me fez a pergunta constrangedora de como foi minhas compras com Clarice, e minha mãe se senta em seguida, na minha frente. É tão constrangedor quase como se olhar no espelho. Somos tão parecidas, a não ser pelas mechas louras no meu cabelo. Queria ter o cabelo louro como do meu pai, para pelo menos ser um pouco diferente da minha mãe. Até mesmo a expressão de zangada, tia Magda vivendo dizendo que somos igualzinhas (ainda acho que minha mãe tem uma carranca maior, eu ainda não vivi o suficiente para desenvolver a minha).
-Eu e seu pai... vamos ter que fazer uma viagem.
-“Ter”? Imagino que seja uma segunda lua de mel – meu pai enfim dobra o jornal e entra na conversa com uma risada:
-Você sabe que sua mãe não tem esse tipo de romantismo – um olhar dela é o suficiente para calá-lo. – Bem, é uma viagem muito importante. E você não poderá ir conosco, então espero que não morra de saudade nas duas semanas que ficaremos fora. Talvez, mais – e agora ele recebe uma cotovelada. – O que eu fiz agora?
-Falou demais, como sempre.
-Mãe. Eu não sou mais criança. Não precisa falar as coisas com a delicadeza de quem tem um parente morrendo de uma doença terminal.
-Mas que imaginação! – mais do que brava, ela parece ultrajada.
-Mãe, é só uns dias fora. Eu sobrevivo. Se não puderem me contar o motivo de tudo isso, tudo bem. Eu entendo – quem se importa com o motivo? O importante é a consequência: terei a casa só para mim!
Ela dá um longo suspiro. O sinal de que está desistindo da discussão.
-Não abra a porta para estranhos, querida.
-Mãe. Por que eu deixaria um desconhecido entrar na nossa casa?
-Adolescentes. Vocês são criaturas imprevisíveis e oportunistas.
-Eles não são aliens, amor – sou obrigada a concordar com meu pai agora.
-Não me chame de “amor” – como revelado mais cedo, minha mãe odeia coisas melosas.
-Prefere que eu te chame de “bebê”?
-Pela Árvore da Vida, não – ai, como amo essas discussões. Dá até vontade de fazer uma pipoca.
Ah, não. O foco dela volta pra mim:
-Tem certeza que não quer ficar na casa de Tio Michael e Tia Magda, querida? Você e Clarice adoram passar o tempo juntas.
-É ouvi-la chorando por que Tio Michael está em uma nova turnê e não quis levá-la por causa da escola? Não, obrigada – foi mal, Clare. Adoraria ficar com você, mas ficar sozinha em casa é uma oportunidade única na vida. Isso NUNCA acontece, minha mãe sempre está por perto para pegar no meu pé. (Vou poder dormir o dia todo. O que mais poderia pedir?)
-E mais importante... SEM TRAZER GAROTOS EM CASA.
-MÃE! De novo, por que eu faria isso? E eu nem tenho um namorado... – essa última frase soou mais decepcionada do que deveria. É, mas é meio triste ter sobrevivido à vida adolescente inteira sem nunca ter se apaixonado. Observo meus pais e ás vezes... agradeço por isso nunca ter acontecido.
-Tudo bem, amor. Você não precisa de um namorado. Pode morar conosco para sempre como uma solteirona.
-Corta essa, velho – não que meu pai seja velho, aliás nem um pouco velho pra idade que tem, mas é só pra chateá-lo mesmo e ver que não sou a “menininha do papai”. Minha mãe nunca repreende esse tipo de atitude, pelo contrário, é uma das raras ocasiões que a vejo segurar o sorriso.
Mas, apesar de tudo, ao vê-los discutindo (e isso é algo muito frequente, é basicamente o que eles fazem o tempo todo que estão juntos apenas os dois), sinto algo aqui no peito. É o mundo deles e sinto que estou do lado de fora, porque certas coisas só podem ser compartilhadas entre duas pessoas (é por isso que mais de duas dificilmente dá certo. Muitas vezes, nem duas dão certo). Porém, gosto de observá-los mesmo assim. Todos os casais apaixonados são iguais.
Será que um dia eu também darei uma bronca como uma demonstração de afeto? E por que me importar? Não é como se fosse ver Zank de novo... não é como se algo fosse rolar entre nós, o dia de hoje foi apenas um encontro inusitado.
Acompanhei meus pais até a porta. Meu pai parecia alegre, como sempre, talvez mais que o normal (seja lá o que for essa viagem, ele deve achar que é uma bela oportunidade para estar sozinho com minha mãe... pobre coitado), mas minha mãe... parecia tensa. Até achei que ela fosse chorar (apesar de durona e brava, ela até que é bem sensível), quando me abraçou e me deu mais uma lista de coisas para não fazer e que eu não faria de qualquer jeito.
Enfim, só! Só demais... que estranho esse silêncio. Jantar sem ninguém querendo se matar é muito estranho. E na hora de tomar banho então... qualquer barulhinho que ouço e já acho que tem alguém atrás de mim... É só porque é o primeiro dia. Mas verdade seja dita, estou com uma sensação estranha. Essa viagem aí está muito mal contada. Mas não adianta ficar pensando nisso.
Quando deito a cabeça no travesseiro, não é com minha liberdade antecipada que fico sonhando ou questionando os eventos do dia. Tudo que me vem em mente são os olhos de céu de verão de Zank.

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