Resenha com Spoiler: Malorie

 

Indo direto ao ponto, não gostei do desfecho que teve esse livro. Porém, se tivesse um terceiro livro, talvez a história pudesse tomar um rumo mais interessante, afinal, após acompanhar o “fim do mundo” no primeiro volume, seria interessante ver o mundo de fato se reerguendo.

Mas, partindo do começo, 17 anos se passaram desde a vinda das criaturas. Malorie e seus filhos não estão mais na escola para cegos, e logo descobrimos que é porque a escola foi invadida, não muito tempo depois de eles terem chegado (eita, pé frio), e, quando o livro começa, estão morando em um acampamento abandonado, e Malorie morre de medo do mundo exterior, principalmente de um possível retorno de Gary. Tom se tornou como... o outro Tom (na verdade, tenho fortes suspeitas que o próprio autor se projetou nele. Pois, ele acredita ser visionário, mas na verdade, é apenas um idiota. Mas, como de alguma forma, as ideias sem noção acabam colando...), sonhador, que acredita num mundo onde todos possam viver em paz e que gosta de inventar coisas. Já Olympia é realista e obedece a mãe, porém, logo descobrimos que ela guarda um segredo de sua família.

Sinceramente, eu amei a Olympia porque ela é a mais sensata do livro todo, enquanto o Tom só faz besteira e a Malorie só se descabela por causa do Tom.

O que impulsiona o enredo é quando os três recebem a visita de um homem que dá notícias do mundo exterior, inclusive de uma comunidade, de uns caras muito loucos, que dizem ter capturado uma das criaturas, e uma lista de sobreviventes. Obviamente, Tom, doido do jeito que é, fica interessado pela cidade dos doidos, enquanto Malorie fica interessada pela lista, se perguntando se seus pais estariam vivos (ok que ela não se perguntou isso por 17 anos, mas relevamos, porque afinal ela estava tentando sobreviver ao fim do mundo).

Enfim, depois de muito “não vamos a lugar nenhum”, obviamente, eles acabam embarcando nessa nova aventura de olhos vendados. Será mesmo?

Eu não sei o quanto o Josh teve de influência no roteiro do filme lançado pela Netflix, mas ficou óbvio que ele quis aplicar nesse livro coisas que foram trazidas pelo filme e que não tinham no primeiro volume, como os próprios malucos. É cruel, porque o negócio que podia ser muito profundo, é apenas muito raso. No fim, nem dá para entender se os malucos são mesmo afetados ou não, ou se eles são mesmo loucos ou apenas um pouco pancados. Essa parte poderia ter sido trabalhada de tantas formas legais, mas não, os caras só parecem uma seita que fazem experimentos doidos, mas não sai disso. Eles nem são tão ameaçadores. Enfim, detalhes.

Como essa é uma resenha com spoilers (ou seja, deduzo que quem a está lendo já leu o livro ou só está curioso), não quero ficar contando o enredo e sim o que achei de determinadas partes e do livro como um todo. Começando por esse segundo, como o próprio nome sugere, realmente acho que funciona bem como uma continuação da história de Malorie e seu desenvolvimento. Desde que as crianças nasceram, vemos uma Malorie endurecida, mas aqui, ela parece quase paranoica, realmente se agarrando a sua venda como única forma de sobreviver. A parte em que ela finalmente a tira, quando cai no buraco, e não vê NADA, além de um momento bem tenso, palpável, representa bem esse desenvolvimento, de como ela acabou ficando cega com a maneira com que lidava com as coisas, e não no bom sentido. Esse momento a fez se lembrar que, sim o mundo não é seguro, mas que é necessário correr riscos para se ter uma chance de vida melhor. E, quando ela finalmente decide encarar a criatura cara a cara, sem abrir mão do que acredita, que o mundo atual ainda seria melhor atrás de uma venda, demonstra que ela está começando a se abrir para novas possibilidades e, consequentemente, para um futuro menos nebuloso. Mas, além do medo das criaturas, ainda existe o medo de um homem, que é até mais forte que esse primeiro medo, o que mostra que nosso medo primário sempre será de nós mesmos e de nossos semelhantes (o medo nunca foi da criatura em si, mas sim de ela abrir os olhos quando não se deve, ou tê-los forçados a se abrirem por uma segunda pessoa). Nesse sentido, de criar o medo, o livro continua na mesma linha do anterior (até vir o final e estragar tudo). E o irônico é que Malorie estava certa em temer Gary, a lábia do cara é mais perigosa que as ideias dos malucos (deve ser libriano). Apenas achei a maneira como ela acabou com ele muito simples. Mas, simbólica de certa forma, já que ela teve que “acertar em cheio” sem contar com sua visão, um tiro no escuro, um risco. E o legal é que não teve consequência nenhuma. De qualquer forma, eliminá-lo foi o jeito dela de se redimir com o passado e finalmente dar mais um dos passos que faltava para crer em um futuro diferente. Ela não teria paz enquanto não fizesse.

Imagino que não seja a única que tenha suspeitado que a Olympia via as criaturas, inclusive, de todas as explicações furadas, o motivo de ela as enxergar foi uma que me convenceu. É até simbólico como ela era os olhos do grupo, e a razão, enquanto o Tom era os ouvidos, e o coração, como se a visão fosse um sentido mais concreto enquanto a audição mais subjetiva (já que, para uma pessoa que tem todos os sentidos, a visão realmente é o sentido que mais usamos para investigar o mundo ao nosso redor, portanto, mais “confiável”, assim como tendemos a acreditar que a razão também seja mais confiável que nossa intuição). Já o Tom me irritou o tempo todo, ainda mais por confiar no Gary (aí fica furada a minha ideia da intuição X razão, porque nesse momento a intuição foi o que alertou a Olympia, enquanto o Tom só foi idiota de novo). E não dá para acreditar que ninguém tenha pensado no que ele pensou (a invenção com o vidro), não é como se ele tivesse inventado algo, e nem que fosse uma lógica lá muito genial (mas, novamente, ainda tendo a achar que isso é mais uma limitação do autor, que é ótimo em descrever terror e péssimo em filosofia e ficção científica).

A ideia do trem foi muito boa e, a maneira como as pessoas o utilizavam também foi plausível (ainda mais dentro de tanto coisa sem sentido). Já o massacre que houve na escola dos cegos, apesar da descrição ser incrível e agoniante, é mais uma das coisas que não faz muito sentido e que sinto que nem houve um esforço para tentar explicar (essa oscilação), as pessoas cegas foram afetadas pela loucura. Tendo a pensar que talvez a loucura possa não ter vindo das criaturas e sim de um surto coletivo. Mas, foi algo que só ocorreu por conveniência, não para acrescentar em algo de fato, porque se fosse para questionar mesmo a partir desse evento, chegaríamos a conclusão que vendas ou fechar os olhos também seria ineficaz.

E, por fim, o motivo de não ter gostado do finalzinho é bem simples: porque a explicação para as criaturas não faz sentido nenhum (assim como em Piano Vermelho, o autor quer criar algo que está além até da capacidade dele), ele resolveu grudar na ideia que as criaturas seriam algo tão extraordinário, o próprio universo, que as pessoas enlouqueceriam ao olhar para elas por não conseguir compreender tudo que elas são. A ideia poderia até ser interessante, se não fosse facilmente questionável. Se o desconhecido fosse capaz de enlouquecer alguém, o ser humano sempre seria louco (o que até que é verdade, mas em outro sentido). E, ok, se as criaturas fossem algo tão grandioso, por que elas são simplesmente “criaturas”? Os bichos só estão lá, sem fazer absolutamente nada, surgidos do nada... Mas, o pior de tudo, que é mais sem sentido do que tudo, é o fato dos óculos terem funcionado “porque eles refletem a imagem de volta para as criaturas, e, ao se verem, elas mesmo questionam sua existência”. Sério. Isso é tão sem sentido. Qual a relação das criaturas se verem com não serem mais capazes de enlouquecer alguém? Sem contar que é tudo balela, porque existem dezenas de superfícies capazes de causar reflexo e nem por isso as criaturas se questionaram antes. A explicação de que elas não enlouqueceriam os humanos quando vistas indiretamente teria sido mais plausível (apesar de ter sido descartada antes). Olha... por mais que pense, meu cérebro não consegue relacionar essas justificativas. Claro que, o livro tem seus pontos altos e funciona bem como um thriller, porém, por mais que me doa afirmar isso, foi um livro desnecessário que acabou com a magia que tinha no primeiro, pelo menos, nessa parte de exploração do universo. Só compensou pelo desenvolvimento dos personagens e pela tensão De Caixa de Pássaros que conseguiu ser replicada em Malorie. Por isso, acho que deveria haver um terceiro, para quem sabe, depois da busca pelo o que seriam as criaturas, teríamos agora a busca pelo sentido. Certas coisas são melhores se ficarem no escuro mesmo.

Para finalizar, queria dizer que não sei se gostei do livro ou não. Assim como Caixa de Pássaros, a experiência foi sem dúvida sensorial, envolvente e de tirar o fôlego, não sei como não li tudo em um dia. Mas, ao fazer essa análise da história, a balança fica em equilíbrio entre os aspectos ruins e bons. Mais uma vez, se pensar na história na visão da Malorie, o livro é excelente. Se penso sobre a visão de um terceiro, olhando para tudo como um todo, não com uma visão individualista, o livro peca em muitos aspectos. Porém, vou acabar dizendo que foi mais positivo que negativo, porque, se fosse o contrário, esse livro teria estragado o primeiro, o que acho que não aconteceu (ainda bem).

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