O Relógio Adiantado

 

Por muitos anos, Gabe se perguntou por que o relógio de seu avô, daqueles cucos de madeira, pendurado na parede, que toca musiquinhas quando bate as 12 badaladas do meio-dia, sempre estava com a hora adiantada. Mais que isso, questionou o próprio avô por que nunca arrumava as horas. Sempre que ia lá, comparava as horas entre aquele relógio e seu celular –  Gabe era um menino esperto, sabia ver a hora dos ponteiros mesmo tendo nascido na era digital – e nunca batiam, o relógio cuco sempre adiantado, fosse em 10 minutos, 8, 5, 3 ou apenas um.

A resposta do avô era que sim, ele arrumava as horas, mas o relógio sempre acabava se adiantando, como se a cada minuto a mais, acrescentasse um segundo a mais em seus ponteiros, até que desse um minuto e assim por diante.

-O relógio está com pressa? – o menino perguntou certa vez, fazendo o avô rir.

-Deve ter hora marcada para ir se encontrar com alguém – o avô respondeu em tom jocoso, porém, seus olhos diziam outra coisa, menos engraçada e mais triste.

Na cabeça de Gabe, deveria haver um motivo maior para o relógio agir assim e não um simples erro de fabricação. Tanto é que, quando perguntou se o relógio sempre se adiantou assim, o avô contou que não. O menino também fez mais perguntas, como desde quando aquele relógio existia, e o avô respondeu vagamente que desde antes de sua esposa falecer. Gabe não conheceu sua avó, isso é, não pessoalmente, mas a conheceu pelas coisas que seu avô contava. Ao saber disso, deduziu que o relógio não funcionava direito porque era velho, ao que o avô rebateu:

-Você acha que só porque sou velho também não trabalho direito? Mande seu pai consertar seus sapatos!

Era uma piada, óbvio. E o senhor continuava tão bom em sua profissão como sempre foi, um humilde, porém dedicado sapateiro.

Aquele relógio o intrigou por anos. Chegava a ser desconfortável querer ver as horas, sabendo que estariam erradas. A última pergunta que fez ao avô foi:

-Por que ainda mantém esse relógio quebrado, vô?

-É que ele me lembra de sua avó.

-Foi ela quem te deu?

-Não – respondeu com um sorriso triste. – O encontrei abandonado perto de casa um dia. Achei uma pena um relógio tão bonito daqueles ir pro lixo, também é por isso que não me desfaço dele. Ele funcionava direitinho naquela época, juro que funcionava.

-Então, quando ele parou de funcionar?

Era esse a pergunta que o avô nunca respondia.

Os anos foram passando e Gabe se acostumou com a presença onipresente e inofensiva do relógio. Em vez de perguntar sobre ele, passou a perguntar sobre sua avó.

-Sabe, um dia você vai ver, quando estamos com alguém que amamos, o tempo parece voar!

Quem diria que logo essas palavras fariam sentido. Gabe conheceu uma moça por quem se apaixonou e, por mais que se vissem todos os dias, o tempo que passavam juntos nunca parecia o suficiente, mas Gabe estava feliz e satisfeito.

Quando levou a moça para apresentar ao avô, ele já estava bem velhinho e debilitado, todos diziam que “seu tempo está acabando”, e Gabe odiava ouvir aquilo. Por mais que não fosse mais criança, ainda tinha a crença infantil que seu avô duraria para sempre.

O avô ficou muito feliz em ver que o neto havia encontrado algo que ele havia perdido antes que ele nascesse, e disse, de maneira que o pegou desprevenido:

-Agora finalmente posso contar. Como o relógio passou a adiantar os minutos.

O neto ficou ouvindo atentamente ao pé da cama do velhinho. Já estava tão velho que passava quase o dia todo na cama, mas ainda mantinha aquele jeito brincalhão de que Gabe se lembrava.

-Foi na noite que sua avó faleceu. Já éramos velhos, mas ainda com tudo em cima, desfrutando um tempo só entre nós, de forma tranquila. Ela havia ido no bingo com as amigas, eu não gostava dessas coisas, então fiquei em casa, esperando por ela. Ela me prometeu que voltaria às 8 em ponto. Olhei para o relógio cuco e ele marcava as 8, mas achei estranho, porque tinha certeza que ainda faltavam alguns minutos até o horário marcado. Olhei no meu relógio de pulso e ainda faltavam quase 10 minutos. Na mesma hora, recebi um telefone. Era de um vizinho falando que minha esposa havia sido atropelada enquanto atravessava a rua de casa. Ela morreu na hora.

-Então... ela nunca chegou no horário marcado – concluiu o neto melancolicamente.

-Ah, chegou sim. Sua avó estava sempre adiantada. Eu que me atrasei em ir ao seu encontro – disse com um sorriso.

Quando o velhinho terminou seu relato e fechou os olhos pela última vez, o relógio cuco marcava 8 horas da noite lá na sala. Mas já passavam das 8...

O neto guardou o relógio que nunca mais marcou outra hora senão 8.

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