Histórias Contadas à Meia-Noite

 

As ruas estão em chamas.

Era assim todos os dias durante o ápice da noite. O fogo ilumina o ambiente como se ainda fosse crepúsculo. O silêncio dando espaço ao crepitar das chamas é o primeiro sinal da patrulha dos golens. O segundo é a marcha ritmada dos gigantes feitos de barro que balança o solo como se um bando de elefantes passeasse por ele. E o terceiro sinal...

Corvos.

 -Esta noite vocês não me escapam.

Como uma sombra em meio as chamas fantasmagóricas daquele fogo não natural em tons crepitantes de laranja, um certo alguém observa o desenrolar destes acontecimentos todas as noites. E como faz em todas as noites, o par de corvos apareceu bem no momento da marcha dos golens. Não poderia ser uma mera coincidência. Nesta alvorada, ele seguiria o casal de corvos e descobriria quem é seu dono e, consequentemente, a pessoa responsável pela conjuração dos golens e de tornar o mundo um reinado de caos e horror.

Metamorfoseando-se em um morcego, seguiu os corvos para além da angustiante escuridão. Atravessando prédios e o mar, por fim chegando a uma caverna no alto de um pico na costa da praia. Isso é, se é que se pode chamar alguns diâmetros de areia de praia. A ilha tratava-se apenas de um aglomerado de terra com uma montanha, quase que no formato de uma torre, com a caverna próxima ao cume.

-Você é a bruxa que fabrica os golens? Pare de conjurá-los – antes mesmo de voltar completamente a sua forma humana, fora direto ao ponto.

-Dei-me um bom motivo para isso – saída em meio às sombras, surge uma mulher de aparência e idade indefinidos, coberta da cabeça aos pés com um manto vermelho-sangue de veludo. Mesmo com suas feições faciais cobertas pelo capuz, foi possível avistar seus lábios vermelhos, quase do mesmo tom de seu manto, se abrirem num meio sorriso obscuro.

 -Está espantando minha comida.

-Ah! Veja só! Um vampiro... Quem sabe se você bater na porta de alguém e pedir com educação e charme, não te deixem entrar mesmo que seja na calada da noite? 

-Se você não parar de conjurar os golens, eu simplesmente a matarei e, livres de seus encantos, eles não serão nada senão barro.

A bruxa deu uma risada seca que ecoou por toda a extensão da caverna.

-Vá em frente. Quero ver você tentar. E, mesmo que consiga, será em vão. “Ela” arrumará outra para que fique em meu lugar. Ninguém é insubstituível no mundo em que “Ela” criou.

-Quem é “Ela”?

-Ela, Ela, Ela. Ela é a pessoa que comanda todo esse mundo, aquela força irrefreável. Ela também é uma bruxa, embora suas habilidades como tal sejam facilmente questionáveis. Mesmo assim, não deve ser subestimada. Ela é Imortal. Nada a detém, nada fará com que pare seu reinado de opressão e trevas.

-Você parece meio insana...

-E quem não ficaria com anos e anos de confinamento, isolamento e escravidão?

-Quem é você, afinal, bruxa?

-Oh, você pode me chamar de Raven... Contar-lhe-ei minha história se você me contar a sua. Há muito tempo não falo com ninguém. Entretenha-me.

-Se é assim, você pode me chamar de Vamp. Posso lhe contar, se estiver disposta a ouvir. Mas, você primeiro, “Raven”.

-Pois bem. Ouça minha história, essa pode ser nossa última chance...

“Você sabe o que é viver sem esperança? Sem nenhuma perspectiva de futuro? Eu costumava ser assim... Nada realmente importava, sabe. Este mundo está todo errado e nada faz sentido. Mas por que eu haveria de ser diferente? Ou nadamos na direção da maré ou nós afogamos. Dizem que a esperança é a última que morre. No meu caso, foi a teimosia, aquela força que me impelia a continuar mesmo eu não querendo. Acho que estou sendo um pouco poeticamente dramática demais. Se continuar assim, só direi metáforas e não chegaremos a lugar nenhum.

Eu sempre fui possuidora de um grande poder, mas isso veio com um preço: vida eterna.

Isso pode parecer bom para a maioria, a cura para o male da humanidade. Mas não é. A imortalidade é a pior das maldições, você deve saber como me sinto, vampiro. Todos morrendo e você continua ali de pé, sempre igual, sem acompanhar os passos do tempo. O mundo gira, toda a ordem muda e você continua igual. Mesmo o conhecimento, considerado a maior das bênçãos, não vale a pena. Do que adianta saber de tudo que eu sei se nada posso fazer? Se minha capacidade cerebral não é a de um gênio para que possa transcender o tempo e espaço. Meu dom é apenas a magia. E foi isso que me condenou. Três vezes.

O pior de tudo é que nenhuma vida vale a pena sem amor. Eu poderia ter a mais curta das vidas e ser feliz se tivesse tido amor. Mas nada nesta vida nunca me encantou. Nem uma pessoa, nem uma coisa, nem uma profissão ou hobby. Tudo o que eu visava era o poder. Porque só a força que eu busco é o que poderia realizar meu desejo. E mesmo assim foi inútil. Nada me restou, nada foi feito ou inventado para mim. Essa é a solidão da alma daqueles que não podem morrer e cuja ambição os levou a superar adversidades humanas que existem por um motivo.

Por fim, cansada de viver, ou melhor, de apenas levar meus dias adiante, vivendo um dia de cada vez inutilmente, sem o menor sentido, eis que conheci uma mulher cujo desejo e destino eram semelhantes aos meus. Porém, ela foi além. Ela tomou o mundo para si. A Grande Rainha. Mas, veja bem, esse mundo em que vivemos não é mais nosso, agora pertence a ela. E eu colaborei espontaneamente com esse propósito.”

-Por que a ajudou? – o Vampiro a interrompeu. – Você poderia estar no lugar dela se quisesse, invés disso, se tornou uma prisioneira, por quê?

-Quem sabe. – A Bruxa simplesmente deu de ombros, com um meio sorriso e um olhar que beirava a insanidade. Claro que, o Vampiro não pôde perceber os olhos marejados dela por trás daquele capuz. – Sem perguntas. Talvez eu responda depois de ouvir a sua história.

-Você... Não consigo entendê-la. Eu só conheci uma pessoa que me causava essa mesma impressão. É sobre ela que quero contar...

“Vampiros na maioria das lendas e mitos são conhecidos como sugadores de sangue. Mas não é isso que somos. Somos sugadores de alma. Podemos fazer isso através do sangue, mas de outras formas também. Particularmente, eu gosto de devorar almas da melhor forma que existe: com amor.

O amor é o sentimento mais capacitado para a destruição de uma essência, não acha? O ódio que supostamente é a contraparte do amor, não é tão forte quanto este. Mas as pessoas que pensam assim estão enganadas, a contraparte do amor é o egoísmo. Eu não acredito nessa ladainha que podemos amar coisas ou amar fazermos coisas. Amor é exclusividade dos seres que estão vivos. Bom, e como tecnicamente eu não estou...

Para ser mais simplório, eu sugo a energia vital das pessoas, de preferência mulheres, através de beijos. Não acha a boca uma parte curiosa do corpo humano? É por ela que eles se alimentam e consequentemente continuam vivendo. E é o que sai dela é o que determina quem as pessoas são. Então nada mais justo do que sugar sua essência do lugar por onde ela é projetada.

O beijo não é a única maneira de se fazer isso. No entanto, se eu for mais além, matarei minha presa. Às vezes, até um beijo mais longo é capaz de matá-las, para ver como humanos são criaturas frágeis. E não queremos que isso aconteça, afinal, é sempre bom ter um estoque bem guardado. Além do mais, por eu não ser vivo, a vida é algo que preservo. Deve ser bom sentir o coração bater forte em meio à adrenalina, ou sentir o sol quente na pele, ou mesmo o vento batendo no rosto. Mesmo essas pequenas sensações... eu não sinto nenhuma delas. Porque não estou vivo.

Mas, uma vez, apenas uma única vez, eu pude sentir.

Foi quando me apaixonei. Nem sei dizer se essas sensações eram mesmo reais. Como disse antes, o amor é mesmo algo que nos toca a alma. Eu não estou vivo, mas talvez tenha uma alma afinal. E com ela eu quis ir mais além.

Naturalmente, eu não podia fazer isso, senão iria matá-la. Acho que a maioria em meu lugar teria cedido. Afinal, um dia ela ia morrer mesmo e poder finalmente alcançar o ápice do amor mesmo que uma única vez... Mas, mesmo que ela fosse morrer um dia, eu não podia, entende? Acho que é porque... eu a amava.”

-Chaaaaato! – Raven disse com um bocejo. – Tem noção de como sua história é brega? Eu já vivi muito tempo, então posso afirmar isso. Achei que pudesse me distrair por uns minutos, mas vejo que estava enganada.

-Você ainda tem uma alma, Bruxa?- Vamp se aproximou dela até que não houvesse praticamente mais distância entre eles. Agora podia ver os olhos dela e ela pôde notar o brilho fantasmagórico nos olhos dele.

-Creio que não. Entreguei tudo que tinha ao único homem que amei.

-Eu sabia que você não estava sendo sincera em seu relato.

-E eu sabia que você me contaria a mais sincera verdade.

O Vampiro abaixou o véu da Bruxa e soube a que verdade ela se referia.

-Você não mudou nada. Continua uma mentirosa.

-E você poderia ser chamado de mentiroso também, por ter se enganado. Por ainda estar enganado.

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